sexta-feira, 4 de março de 2011

TEOLOGIA EM INSERÇÃO

Teologia em inserção

Desvios no curso inicial da vida, são efeitos diretos e, por vezes, conseqüentes do simples fato consistente de acreditar em vocação. Diferente de um prédio projetado invariável, a vida por sua vez se projeta enquanto se constrói, ou melhor, vivendo-a. A cada passo que se vive, o homem pode depara-se com descobertas sobre ele capazes de mudar planos sólidos ou até mesmo os sonhos mais almejados. Entre tais descobertas, a de maior persuasão é, sem dúvida, a vocação. Ela coloca cada indivíduo em seu lugar exato na sociedade, como uma peça indispensável para o funcionamento de uma máquina ou um órgão vital para o corpo.

Na busca ininterrupta desse meu lugar entre as pessoas, encontro na teologia meu encaixe como peça nesse quebra - cabeças social. Muito além da cômica curiosidade da criatura a procura de entender o Criador, a teologia se insere na minha vida como a área de conhecimento na qual claramente me identifico, melhor sei reproduzir, criar e recriar, enfim, aplicar de forma direta nas vidas que me cercam. Surpreende-me e cativa de sobremodo, a forma singular que a pessoa de Jesus penetra, influi sobre alguém e transforma sua substancia impura, como mágica ou química, em algo de natureza nova, ou mesmo sincera; consciente pecador ascendendo pelo caminho que leva a perfeição varonil. Um novo nascimento sem a necessidade de retorno ao ventre materno, uma observação transcendente que como nenhuma outra é digna de notoriedade. Talvez nenhuma outra profissão ou ideologia, seja capaz de atingir de modo tão significativo e poderoso a vida das pessoas, ao ponto da fé tornar-se centro único que move (pelos mais diversos caminhos), direciona, unifica vidas. Apesar dos tantos equívocos eclesiais, a religião nunca se ausentou da história; ela é parte das sociedades e da alma humana e, a meu ver, em virtude, digna também de análise e estudo.

A teologia empreita a frente uma caça por respostas, cujas perguntas promovem a marcha da vida em busca de sentido e felicidade, por essa razão ela sempre se coloca imersa a todas as questões indissociáveis ao homem. Sem dúvidas, entender Deus vem a ser uma presunção sem medidas, todavia a marcha por resposta certamente caminha indesviável ao Seu encontro. Por sua importância e presença inquestionável no cotidiano humano, ser teólogo insere-se nos meus planos como objeto digno de vivenciar e fazer uso para benefício das pessoas e crescimento próprio. Crescimento em termos de fé, serviço e descobertas.

Jesus já é alguém intrigante e atraente o bastante para justificar a dedicação de boa parte de minha vida na tentativa de interpretar sua real mensagem, para assim envolver-se por ela e enfim difundi-la na espera de mudanças reais que começam na vida, mas cujos efeitos, acredito, vão muito além do tempo, ou mesmo da morte. Sem tantos mais rodeios, confesso que inserção da teologia na minha vida alimenta minha fome de conhecimento sobre Deus, todavia não fixa cegamente meus olhos para o céu, pelo contrário, aproxima-me involuntariamente das pessoas, pois é nelas que os termos abstratos da fé se concretizam e, afinal, são elas o objeto do amor divino. De modo que teologia não se prende apenas a sua relação com o estudo de Deus, mas estende-se, sem medidas, em direção as pessoas. Por essa razão talvez, relaciona-se sempre a teologia ao ministério pastoral, pois afinal, pastorear em termos simples resume-se em cuidar das pessoas. Entendendo assim, o pastoreio é parte integrante dos meus projetos de vida e certamente a teologia contribuirá para essa realização.

Em termos mais diretos: cuidar das pessoas, auxiliar como servo nos ministérios da minha igreja – principalmente no que diz respeito ao ensino - e galgar uma evolução acadêmica progressiva, são objetivos pretendidos por mim e essa graduação vai ser um sólido e necessário fundamento para concretizá-los. Além de qualquer argumento, acredito também em vocação e estou disposto passar as páginas de uma vida objetivada pelas minhas necessidades, e atentar a essa voz que promete apenas um lugar de servo na sociedade, uma fé a ser guardada e uma carreira que ainda preciso completar.

Castro Lins

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O DIA DA ILUSÃO





Particularmente aprecio, sem medidas, a data do natal. As luzes são encantadoras e seus enfeites travestem a vida com um brilho magnífico que esteve ausente durante um ano quase inteiro. As refeições são fartas e as mesas se compõem de familiares que normalmente estiveram ausentes durante muito tempo. As igrejas ensaiam corais, entoam lindos louvores sobre o dia em que Deus fez-se menino para habitar entre os homens a fim de salvá-los, trazendo raros nuances do nascimento de Jesus que estiveram ausentes da memória por praticamente um ano, perdidos entre os meses que antecedem dezembro.

Sinceramente, a magia natalina não importuna meus sonhos. O que em verdade preocupa é o que esteve ausente durante o restante do ano. O natal é encantador, e não poderia proceder de outro modo, pois romanceia a vida nos moldes que ela deveria decorrer durante o ano todo... Todavia, é imperdoável limitar a ceia – alimento responsável por amarrar os laços de uma família - a apenas uma noite em especial; ou escolher somente um entre os outros tantos dias da vida para ser grato a Deus. Restringir o nascimento do esperado Cristo a um dia na história, seja ele qual for, faz de Jesus mais uma entre inúmeras lendas de seres extraordinários. Apenas mais alguém improvável, personificado nos livros de história e nos contos imagináveis, ou um Bicho Papão que a igreja inventou para amedrontar os homens e encabrestar suas ações. A inabilidade para c rer e festejar a encarnação de Deus no transpassar de cada dia, faz do natal a data que os homens escolheram para viver sua maior mentira... Feriado cuja razão não vai muito além das massivas compras de pessoas entregues a apelos consumistas.

Os homens aprenderam a selecionar datas para boas obras e virtudes, na tentativa de calar uma consciência que requer em exigência, tais atitudes diariamente; não se constrói um castelo em feriados, pelo contrário, o que é de importância suma, exige a maior parte do nosso tempo.

De forma semelhante aos judeus, contemporâneos a Jesus, que deixaram o real significado do sábado perde-se nos moldes sólidos da tradição, os cristãos também estabeleceram o seu dia da ilusão, a saber: o domingo. Para alguns, esse é o dia, entre outros seis, escolhido para falar, vestir, cantar e enfim viver como cristãos. O dia da ilusão. Pois o castelo verdadeiro ao qual cada homem constrói, reside no lugar ou nas ações pretendidas com a maior parte do seu tempo, de modo que, em maioria de casos, as horas dadas ao trabalho ou a escola e família são de sobremodo maiores comparadas a aquelas dedicadas a visita dominical numa igreja. Portanto são essas as horas, e esses os exatos locais onde o real cristianismo merece ser manifesto com inteireza.

O domingo ganha termos hipócritas quando se diferencia do restante da semana: Quando Deus é exaltado com palavras no primeiro dia da semana, numa construção eclesial e esquecido no segundo dia num estabelecimento comercial desonesto, por exemplo. No terceiro dia por vir, Deus é ignorado no lar de pais e filhos intransigentes e carentes do menor sinal de afeto, cabível a família e ainda mais aos cristãos. No quarto dia, já tão distante do domingo, a alma encontra-se vazia e faminta por qualquer forma de relacionamento seja ele real ou não, abusivo ou faça uso egoísta de alguém. No quinto dia, Deus é retirado do campus universitário e preso nas gaiolas da igreja, local seguro onde Ele não pode chocar-se com ideologias ou talvez interromper os interesses tão comuns de ascensão social e distinção econômica que a universidade tanto propicia. Deus é tão sagrado, que ao sexto dia é excluído do ambiente de trabalho e assim Ele não pode ouvir todas as palavras maldosas e traiçoeiras que se profere contra colegas, ou um chefe. Ao sétimo dia Deus descansou, mas o homem continua a correr pelas cidades sem saber ao certo onde deseja chegar, a passos largos despercebido para as vestes maltrapilhas dos mais pobres que contrastam as roupas cristãs formais de domingo, o primeiro dia.

Dividir a vida em compartimentos à mercê de períodos ou ambientes, é uma forma perigosa que impede que o homem exerça o papel de um único personagem ao longo dos seus dias, sobre o palco particular da existência que possui apenas Deus como expectador. O Natal é uma mentira! Pois não é enorme o bastante para substituir todas as ausências do ano; de modo que sua veracidade depende, exclusivamente, do natal celebrado em verdade e amor todos os dias que possam anteceder dezembro. De caráter indistinto, os cultos dominicais são ilusões que ganham tons reais e veracidade apenas quando celebrados todos os dias conscientes de uma vida, fazendo do trabalho, lar, clube, trânsito, escola, cinema, fazenda... locais sagrados de culto continuo. No entanto, o papai Noel aparece uma vez no ano, na noite de natal. Semelhante ao deus feito de ausências, cujas aparições se limitam a um dia da semana. Entristece convir que muitos ainda acreditam no Papai Noel dos domingos à noite.

Castro Lins

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A ESTRANHA AMIZADE




Interessa atentar aos amigos e o modo como nos relacionamos com eles. Estranhamente, cada vez menor a proximidade, mais os tratamos com cordialidade e respeito. Temos- os semelhantes a visitas, oferecendo sempre o melhor - como um sinal de hospitalidade - tendo sempre em mente que as visitas nunca permanecem por longos períodos em nossas casas, assim, esse sacrifício cordial é encarado como breve, finito e louvável. Todavia quando se trata de amigos de verdade as ordens se invertem: ao invés de uma breve visita e posterior afastamento, o amigo a cada dia se aproxima mais tornando a cordialidade e o respeito um sacrifício duradouro demais que logo é posto de lado. Não é difícil identificar sinais de bons e velhos amigos, basta perceber os apelidos carinhosos ou gozadores; basta observar a implicância de um com o outro, ou a forma cara de pau que um se intromete na vida do outro sem medir palavras nem vender conselhos.


As formalidades se corrompem, pois nunca de boa consciência alguém, despercebido, deixaria escapar uma furtiva lágrima na frente de uma ilustre visita, porém, no que diz respeito aos amigos, lavamos o chão com todo nosso pranto se assim exige um desabafo. Mais cômico ainda é o modo ao qual reivindicamos dos nossos amigos alguns direitos: atenção, carinho, conselhos, dinheiro emprestado, telefonemas em horas importunas, depoimentos virtuais, memória impecável e entre outros. Fardos por vezes pesados e que nunca ousamos impor a um estranho. Favores a níveis mais difíceis remetem sempre ao amigo de nível mais verdadeiro, de modo que os sacrifícios do cotidiano estão sempre a cargo dos melhores amigos. Nem mesmo a memória dos amigos escapa de tantas exigências quando a questão refere-se a datas. As brigas também são um fator curioso, pois não é difícil crer que na mesma medida eminente da amizade, ocorre uma freqüência maior de brigas e uma disposição ainda maior para reconciliações.


Penso nesse instante, que todas essas estranhas relações entre amigos assemelham-se ao tratamento mais comum entre os irmãos: para esses, as implicâncias e discussões são tão normais quanto a ternura, altruísmo e proteção de caráter fraternal; de forma que os sinais de um desapontamento e total afastamento entre amigos ou irmãos não são exatamente as brigas, exigências, invasão de privacidade ou a falta da cordialidade ... mas sim, sem dúvidas, o sinal mais verificável corresponde a indiferença nos diversos aspectos da vida do outro. A inevitável petrificação do coração ocorre, não completamente, quando se deseja o mal a alguém – esse estágio de maldade nem sempre é alcançado – na verdade a forma mais comum de separação se faz quando não nos importamos nem mesmo com o bem e muito menos com o mal que afeta aquele que outrora foi próximo a nós.


Essa semelhança aparente entre o relacionamento de amigos e irmãos, não tem outra razão lógica a não ser o fato que a amizade é um caminho de aproximação que alcança a estatura da irmandade, implica também no que diz respeito aos desagrados, como já ditos: implicâncias, exigências... Todavia o fator mais glorioso é o aspecto da proteção e apreço cabíveis aos irmãos, porém conquistados com bravura pelos amigos. É uma elevação do amor... como mágica que transforma dois sangues distintos num único somente. A amizade é desafiar o destino e reescrevê-lo inserindo na história dois irmãos que outrora foram estranhos, nascidos de mães diferentes. As relações do amor são confusas de métodos indelicados, que por vezes fogem do nosso entendimento, e aos olhos dos homens são engraçados e sem sentido. Por outro lado, os incovenientes da intimidade são um preço mínimo comparado ao prazer de um amigo verdadeiro... Fazer dos simples visitantes da vida, irmãos para eternidade... é como fazer de um mundo separatista e indiferente uma enorme família num banquete de natal. Bem aventurado quem faz de um amigo um irmão chegado.


Castro Lins

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

DESTINADO



Confissões dispostas no destino...
Falsas palavras nas quais repito,
São ordens de bom parecer divino,
Teatro de roteiro outrora escrito.

Dias póstumos postos no passado,
Igual aos mortos são os vivos visto
Que ainda nada pode ser mudado-
A eternidade com fim previsto.

Mas foi num dia chuvoso de repente,
Ousei contra o destino fi-lo ausente
Minutos... e Deus deu-me alguns somente;

Bravio roubei do destino sua pluma,
Navio de mar nordestino de espumas,
Doçura que dura minutos de bruma;

Céu de cheiro macio para os dedos,
Água pura que nas mãos corre turva,
Mel dos olhos e chora a cheia chuva
Para mares lava alma e leva os medos;

Avermelhados lábios são telhados
Talhados aos anseios mais pedidos
Das preces poemas dados aos ouvidos
Do Deus o escultor de tudo criado;

Criado do destino ditador...
Por minutos fui livre e libertado,
Liberto a milhas perto do amor
Que fugia embora entre os estados;

Poucos minutos de sonho passados,
Acordo do lado e vejo o abandono...
Sono do amor nunca a mim destinado,
Engano do tempo meu sol no outono;

Destinado a nunca esquecer a emenda,
Desvio no destino encurvo de rendas:
Noite de chuva, estrelas e lendas.

Antes do tempo predestinado a estar
Preso afável ao meu amor imutável
E assim destinado ao destino mudar.

Castro Lins

terça-feira, 30 de novembro de 2010

TEMPOS ETERNOS


O solitário é sozinho enfadonho...
O amor cujas palavras a ser lenda,
Hoje simples estória a mais um sonho
Bastante erro para que se arrependa!

O Amor gerado a gerações de outrora,
Agora em bares outras mais estórias
- No tempo a eternidade em uma hora -
Já não passas da glória mais inglória.

Conto - duvido tua veracidade...
Encanto nunca posto a prova antes,
Pois não eras verdadeiro, era a verdade!
Minha eternidade de breve instante;

Enterro o amor nas terras do tempo
- Isso e nada mais és sobre o chronos -
És eterno entre romances que invento...
A história que levas... é o que somos.


Castro Lins

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

EM MEMÓRIA DE MIM





“Olá Castro. Estou com saudade de ti. Lembro que um dia disseste que achas flamboyants floridos muito belos, semana passada vi um. O pior é que pouco a pouco mais e mais dessas árvores vão florir e com isso minha saudade vai aumentar.”
A saudade é estado de ausência que é fome em quem a porta. Emprestei a uma amiga, minha pura admiração pelos flamboyants.
Sem exitar vejo que ela fez dessa árvore um altar, um símbolo que incita a memória humana e traz o passado de volta ao presente: enfim, tem-se uma definição próxima para saudade.
O concreto, outrora inanimado, ganha vida através da metáfora. E a árvore florida perde sua simploriedade comum a todas as pessoas ressaltando, a partir desse instante, um significado novo e único para dois indivíduos em especial.
O flamboyant é o altar que levantamos para relembrar nossa amizade. Todavia o símbolo só faz sentido diante da ausência do que se espera.
É como contemplar a fotografia de alguém que partiu.
De mesmo modo funciona a esperança que existe na perspectiva da vinda, que por vezes é celebrada e vivida antecedendo a chegada. A saudade por sua vez, em termos idênticos, também carece da existência do ausente, remete ao desligamento, ou melhor, ao romper das relações de união.
De modo que cada altar que os homens construíram aos seus deuses, no transpassar da história, é a evidencia mais clara de uma saudade latente entranhada neles...
Saudades do desconhecido, do místico que, antes do misterioso romper, era parte vital desses homens.
E Jesus tomou o pão e dando graças o partiu dizendo:
“Esse é o meu corpo que é entregue em favor de vós. Façam isso em memória de mim”. De igual modo pegou o cálice e disse: “Esse é o cálice da nova aliança feita por Deus com seu povo, selado com meu sangue. Cada vez que vós beberes do cálice, façam isso em memória de mim.”
Fazei isso em memória de mim, disse ele.
Após tais palavras, para aqueles homens, o vinho já não tinha o mesmo sabor, eles passaram a degustá-lo com a alma, e a cada gole a memória instintiva era remetida diretamente a Jesus.
Antes do flamboyant, o pão e vinho prestavam a mim menos significado.
O flamboyant é meu símbolo de amizade e o vinho é a expressão metafísica de uma aliança entre Deus e seu povo. No breve instante do partir do pão e do beber do cálice os Cristãos erguem, onde quer que estejam, um altar que reaviva a memória e seja qual for a relevância do sacrifício de Jesus no passado, agora, é parte da vida dos cristãos hoje, no presente.
A memória humana se alimenta dos símbolos... É o cheiro da chuva que inevitavelmente percorre as narinas e manda um recado para a memória, e por fim lembramo-nos de alguém ou de algum instante. Bastam apenas meros gestos particulares e um magro colo para que alguém reveja sua mãe, estando ela presente ou não. Ou perante a cor da farda militar, que ainda não desbotou na mente dos torturados da ditadura de 64, uma memória mórbida que conduziu muitos ao suicídio.
A memória tem fome de símbolos, e Jesus parecia estar certo disso quando instaura sua ceia santa. O pão é o corpo de cristo, e a única mágica ali presente diz respeito às metáforas e ao mundo dos significados. O vinho é seu sangue e ao mesmo tempo uma assinatura que sela um compromisso, recorda uma aliança!
Reagindo de forma indiferível, sem exceções alguma a diferir, o flamboyant lembra minha amizade de outrora, ou talvez, a aliança cuja matéria que a compõe são promessas cabíveis no universo da linguagem, porém, ainda assim, tais palavras ganham formas concretas de metal conforme um perfeito encaixe nos dedos humanos.
A ceia, assim como o flamboyant ou o cheiro da chuva, para esse que vós escreve, são meus altares. Símbolos sagrados que o homem constrói para aproximar-se do ausente, e ao mesmo tempo celebrar em anseios a sua volta.
Altares nos lembram de quem amamos, imortalizam seus feitos e existem sempre em memória de alguém. Assim o povo Judeu, em suas longas caminhadas, levantava altares para preservar sua gratidão a Deus, essa freqüentemente passível ao ingrato esquecimento.
Cada símbolo é parte intima do que somos e o que não podemos nunca esquecer, portanto, sou um construtor de altares para que a memória não se esvazie dos significados mais ternos como a gratidão, amizade, pessoas amadas, Deus...
O flamboyant é sagrado em memória de uma amizade. O vinho e o pão em memória de Jesus e assim por diante... De forma a aproximar-se do ausente objeto de amor. Sempre em memória de alguém.
Castro Lins





“Até o pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, para abrigar seus filhotes; eu, os teus altares, Senhor dos exércitos, Rei meu e Deus meu!” Salmo 84

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CONSELHO

CONSELHO

“O que diremos, pois, à vista dessas coisas?” As vezes fogem as palavras. Sou um bom escritor impessoal, todavia, quanto mais próximo do meu leitor, mais desmontado fico.
É muito fácil ser distante, descompromissado para com o outro. Tendo em mente esse diagnóstico C. S. Lewis afirma ser o amor, esse em suas diversas facetas, um caminho direto, e por vezes sem volta, para o sofrimento!
Quando criança, eu ingênuo suficiente, a parte de qualquer preservação própria, dava-me empenhado a amar meus amigos e pais irrestritamente sem saber que estava fadado a dar de cara com o sofrimento... Diante dessa surpresa inconveniente, passei a odiar o amor pela sua forte ligação ao desespero e dor...
Fui castrado dolorosamente desse sentimento vil decidido a não mais sofrer.
De repente, no beliche do meu quarto de internato, sozinho, senti que alguém corajosamente abrira as partas do amor. Tentei adverti-lo do sofrimento por vir, mas ele não me deu ouvido e ousou amar-me consciente de toda a dor que isso lhe causaria. Ele me amou primeiro, e amou até o fim... até a cruz. Nada em troca me pediu, nada de ide ao mundo, nem a igreja. Somente Vinde... Vinde a mim... Vinde de novo... Vinde... e eu o atendi!


Sempre, inclusive hoje, temo o amor e estou certo que ele não faz sentido, pois enfim, como diria Camões: “ele é contrário a si...” e no seu decorrer depara-se com a dor conseqüente, mas já não importa: “é dor que dói e não se sente.”

Instantes dizem que algumas pessoas conseguiram desvendar o segredo do amor, vou contar-lhe não porque resolvi o enigma, narro apenas o que ouvi dizer: O amor e a dor são entrelaçados, todavia para raros, o amor cresce tanto... que a dor assim, mais parece um detalhe que afeta e machuca no entanto não detém, pode ferir mas não mata, aviva. Nessa fase o amor é posto na balança junto ao sofrimento e o desnível da balança nos diz que a dor é um preço mais que justo para o amor...

É sobre a cruz que lhe falo em metáforas! A cruz abominável pelos homens foi apenas um preço justo e pequeno diante da Salvação e do plano inequívoco de Deus. A cruz é parte da história como conseqüência inerente a um amor sem igual, todavia ela não é o fim... é somente parte.

Enfim... conselhos chateiam quando muito longos. ... Quero apenas que lembres que não importa os esforços seus para amar alguém, tudo que é verdadeiro nasce em atentar aos repetitivos: Vinde... Vinde... Vinde... Esse é o segredo mais público que conheço. Vai! Esse é meu conselho.


Castro Lins