quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

CHEIRO DE CHUVA...


Cheiro de Chuva

És tu que cheiras a chuva...
És tu videiras e uvas...

Campos de sorrisos vastos...
Vem forte vento sul,
Sem dó dobra e deita os pastos,
Doce como cupuaçu...

Cheiro de chuva és tu...

És tu que a chuva cheiras...
Umedece a árida alma,
Bêbada a ávida fauna
Chora vinho em cachoeiras.

Inunda o sertão afunda,
Manga por ser tão linda,
Tomba o sol como pitomba,
Cai e a semente sol vinga...

Foi quando o novo dia nasceu
Pra logo a tarde morrer...
Sede, sinto o cheiro seu,
Chora o céu, volta a chover.

Castro Lins

sábado, 23 de janeiro de 2010

Desceu ao Hades


A professora de português acabara de entrar na sala... Lá vinha ela com seus exercícios chatos sobre orações coordenadas e análise sintática. Fui sinceramente incapaz de perceber alguma utilidade naquelas aulas. Ela passou de mesa em mesa, distribuindo cópias de uma folhinha que conquistou minha atenção pelos versos e minha antipatia pelos posteriores exercícios. Depois daquele dia, guardei comigo aquela folha de A4 por alguns bons anos. Por fim, envelhecida, ela amarelou. Hoje, ao lecionar, vejo-me com o dever inquieto de repassá-la:


Oração Sem Nome


O autor desse poema, quem o sabe? Foi encontrado em pleno campo de batalha, no bolso de um soldado americano desconhecido. Do rapaz estraçalhado por uma granada, restava apenas intacta esta folha de papel:


Escuta, Deus:
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te. Bom dia! Como vais?
Sabes? Disseram-me que tu não existes,
E eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado tua obra.
Ontem à noite, da trincheira rasgada por granadas,
Vi teu céu estrelado
E compreendi então que me enganaram,
Não sei se apertarás a minha mão.
Vou te explicar e hás de compreender.
É engraçado: neste inferno hediondo
Achei a luz para enxergar o teu rosto.
Dito isto, já não tenho muita coisa a te contar:
Só que... que... Tenho muito prazer em conhecer-te.
Faremos um ataque à meia-noite.
Não sinto medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! É o clarim! Bom, Deus, devo ir embora.
Gostei de ti... Vou ter saudade... Quero dizer:
Será cruenta a luta, bem sabes,
E esta noite pode ser que eu vá bater-te à porta!
Muito amigos não fomos, é verdade.
Mas... Sim, estou chorando!
Vês, Deus, penso que já não sou tão mau.
Bem, Deus, tenho que ir.
Sorte é coisa bem rara:
Juro, porém: já não receio a morte.



“As mais belas orações de todos os tempos”



É difícil, e ao mesmo tempo curioso, entender o que aconteceu com esse soldado. Quando se caminha pelas veredas do inferno, a última pessoa que esperamos encontrar é Deus. Esse encontro foi no mínimo surpreendente. Estive a refletir um pouco sobre a vida e suas dores: Há um enorme sofrimento, tanto quanto o azul suave do céu, ambos, sobre nós.

A uma certa idade, a criança depois de muito chorar e mesmo assim ser ignorada, cessa o choro e tenta, sozinha, solucionar os seus conflitos. A dor dos escombros de um mundo em pedaços fez muitos enxergarem apenas uma ausência no espaço reservado a Deus. O resgate não chegou, elas tentaram sozinhas sair das ferragens e tratar dos ferimentos da vida. Para muitos envoltos a fatalidades quase infernais, o diabo ou qualquer outro ser que represente uma angústia ou dor, faz-se mais crível que o próprio Deus.


Eu era mais um adolescente brasileiro, perturbado com minhas cotidianas crises depressivas, quando a guerra hedionda violentava as terras do Iraque... Com uma personalidade ainda incompleta, limitado para entender aquilo tudo, eu apenas chorava sobre a beliche do meu quarto de internato. Foi quando decidi, robótico, comparecer àquela inútil aula de português. Entre as orações coordenadas, interessou-me substancialmente aquela “Oração Sem Nome”, de autor desconhecido.


Sei que posso parecer irracional, todavia, por mais irônicas que sejam minhas palavras, estou certo de que, por entre o sofrimento, Deus pode revelar seu amor; e, se fosse diferente, creio não haver necessidade de uma cruz e um Deus pregado nela. Devo convir que Deus não retira de nós em totalidade a dor a qual estamos sujeitos, ao invés, Ele sujeita-se a ela junto a nós, de livre vontade. E, se antes Deus parecia distante, ausente de toda confusão e calamidades que vivemos, a ponto de alguns negarem sua existência... agora, Ele parece próximo, imerso nas mesmas dores, fazendo sua existência tão clara quanto à existência de um Pai protetor em tempos de guerra. Provando a todos que quiserem tocar nas feridas de suas mãos, que Ele é mais que a figura invisível de um fantasma, e tão real quanto eu e minha carne que sofre. Provando Sua presença no escorrer de cada lágrima salgada... Na solidão, talvez a me ouvir na cama de cima da minha beliche.



Havia um filho, criminoso, destinado à prisão, e um pai justo empenhado, até o fim, a manifestar seu amor pelo filho. Ele tinha o poder de interferir nesse destino doloroso do filho e negar a justiça, ou, simplesmente, deixá-lo sofrer justamente pelos seus erros. O pai resolveu perdoá-lo sem reservas, todavia não interferiu nas consequentes aflições recorrentes aos crimes de seu filho. Por fim, de livre escolha, o pai resolve tomar para si o mesmo lastimoso destino do filho; ambos, juntos, foram presos e aguardavam em meio a aflição do cárcere, o dia da justa liberdade. Essa foi a forma pela qual o pai escolheu manifestar seu amor. Não creio que Deus seja limitado demais, frágil ou fraco para deter as sombras do sofrimento, penso apenas na melhor e mais justa forma para manifestar tão eminente amor.

O que o jovem Michael conhecia da vida era apenas uma face deteriorada: os abusos do padrasto, a pobreza, as drogas, o suicídio. Ele, outrora, nunca poderia ao menos imaginar os compassivos negros olhos, de tom semelhante à cor da pele, daquele senhor que conheceu na noite da sua horrível overdose. Após sucessivas dores mórbidas, Michael estava caído, febril, em qualquer calçada, quando o senhor Jonas colocou-lhe em seus ombros largos e o levou para sua casa - um banho quente e também alguns antitérmicos, um forte café e um suave pão. A dor deu a Michael a oportunidade de experimentar o aconchego de um lar onde mora até hoje e, sobretudo, Michael ganhou um pai naquela noite.

A despeito dos jardins e suas flores, sorrisos infantis inspiradores, da esperança bem protegida que guardamos na alma... A despeito do belo, todos os que choram testemunhariam contra minhas palavras se eu ousasse insinuar um pleno estado de felicidade nesta vida; na verdade, o que temos são relâmpagos, clarões de luz numa noite escura e tenebrosa. E, se mesmo assim, houvesse múltiplas razões para sorrir, meu sorriso perderia a cor desbotado pela lágrima de algum aflito. Apenas se vivêssemos numa bolha, isolados da realidade, apenas assim, poderíamos pregar um pleno estado de alegria nesse mundo, mais parecido, no entanto, com um conformismo covarde. Quero dizer que é simplesmente difícil sorrir enquanto muitos choram.

Mesmo que as estrelas nos apontem a felicidade, somos como aquele simplório soldado contemplando o céu de uma trincheira rasgada por granadas. E a seriedade cômica consiste exatamente nesse inferno hediondo, lugar esse onde o Pai reside, apenas para estar próximo de seus filhos. Ele nunca abandonou os presídios, senzalas, campos de guerra, favelas, escombros, o escuro sombrio do meu quarto... Ele nunca nos deixou à mercê do acaso. Sua presença comprova- se em seu amor e consolo entre os prantos do dia a dia, em sua escolha cega pelos excluídos e feridos dessa funesta guerra da vida. Deus não escolheu a dor, antes, sujeitou-se à mesma dor que nós escolhemos. Deus não escolheu a morte, porém entregou-se à morte destinada a nós. Essa é a prova incontestável, não somente de sua existência; além do imaginável, é o veredito da sua compaixão... Certo disso, em partida para a cruenta luta à sua espera, o soldado encerra sua oração: “Juro, porém: já não receio a morte”.

Castro Lins



Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua face?
Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também.
Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.( salmo 139)



Em qualquer lugar no espaço, Deus permanece com seus filhos... ainda que soterrados entre os escombros de um terremoto. Deus Abençoe o Haiti!

22/01/2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

VIVOS

A morte roubou lágrimas de Deus! Jesus chorou ao ver o sepulcro do amado Lázaro. A vida roubou lágrimas de um homem, foi quando a morte se fez mais preferível que a vida; todavia, da vida sabemos da dor pertinente a ela, da morte nada sabemos... essa relação, para alguns, é um risco sensato, daí a morte é uma aposta no mínimo coerente.

Em dias de fome e desigualdade entre os homens, uma mulher foi impelida a prostituir-se para alimentar seus irmãos ainda crianças. Alguém lhe indagou com furor: “ o que te impede de lançar-te daquela ponte, para que o feroz rio recolha tua vida e leve em suas águas todo o teu sofrimento?” Ela chorava, e não sabia responder-lhe. Ele olhou para a velha cama ao seu lado e viu uma bíblia sobre os lençóis, de repente, já com as escrituras sobre as mãos, esse jovem homem insiste para com a moça imperativamente: “leia para mim sobre a ressurreição de Lázaro!” Assim ela o fez, e o capítulo chega ao fim com a seguinte e literal frase: Lá estava... “ uma prostituta e um assassino diante das Escrituras Sagradas.” Esse breve trecho do livro “Crime e Castigo” de Dostoiévski, mostra em sutilezas a violência e dor pertinente a vida. O jovem assassino teve sua resposta, não proveniente das palavras da mulher, pois talvez nem ela mesma sabia ao certo o que a sustentava viva. A resposta que ele procurava estava sobre a cama, bem ao seu lado.

Quando assolados pela sombra do suicídio, na busca do alivio das dores do mundo, percebo o quanto Deus é a única base solida, sustentáculo, que faz da vida ainda mais preferível que a morte. O alívio incerto que busca-se na morte, encontra-se, indesviavelmente, em Deus.

Jesus Atrai para si de braços estendidos e olhos fechados em amor... suicidas, prostitutas, assassinos, publicanos, ovelhas perdidas, pobres, doentes... Todos encontram nele o perdão de seus crimes, e consolo de suas almas torturadas brutalmente pela culpa. Todos inclusos, assentados ao redor das escrituras, como famintos em busca de pão numa mesa farta, como mariposas atraídas pela luz sedutora. “O cristianismo - ponderou Nietzsche - tomou o partido de tudo que é fraco, vil e malogrado...” Talvez suas mentes não saibam ao certo responder o que os sustenta vivos, mas convêm saber... que neles há vida mesmo cercados pela morte, marcham a caminho da felicidade mesmo em prantos.

A morte ainda hoje rouba lágrimas de Deus, no entanto Jesus trouxe Lázaro de entre os mortos, pois enfim Ele preferiu a vida, e acrescentou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crer em mim ainda que morra viverá.” Depois de tanto procurar a resposta... agora sei o que ainda me mantem vivo!
Castro Lins

domingo, 29 de novembro de 2009

APENAS LOUCURA


Talvez o visível limite que separa o normal e o patológico, seja apenas uma linha feita a giz, e bem fácil de ser apagada com as mãos.

Mesmo ainda bem distante de uma interpretação plena, minha velha memória ainda é capaz de folhear um intrigante livro que li em minha adolescência. Lembro-me bem do renomado médico que recolheu, ou melhor, encarcerou, em sua casa de tratamento, grande parte de uma cidadezinha do interior do Rio do Janeiro, conforme justificativa sólida de um diagnóstico de loucura. Cômico pela aproximação da realidade, o fato que qualquer anormalidade, ou atitude incomum, era um incontestável sintoma de insanidade.

No fim do afã da caça aos loucos, ao “Alienista (1) ”, restou apenas, uma única e decisiva análise pelas profundezas de sua própria mente. Depois de muito averiguar... nada encontrou, nenhuma anomalia, nem se quer um sintoma para fazer-lhe um insano, nada anormal, apenas o fato dele diferenciar-se de todo o restante da cidade. Diante de tantos doentes, ele percebeu sua plena sanidade, isso fez dele diferente, isso fez dele um louco! Por fim, o próprio internou-se.

Num mundo de mortos, respirar é um ato de loucura. Porém é inaceitável se dizer o mesmo, ou defender esse vil diagnóstico, num mundo de vivos, onde respirar é extremamente comum. De qualquer forma, tudo que se difere da força maior, ou da maioria, atribuímos como insanidade.

Minha memória mesmo que por vezes furtiva, agora me fala sobre outra obra clássica: Quando envolto a traições, diante de pessoas que levam a nada o valor da vida na fome pelo poder.... Perante esse quadro de traços fúnebres que o pintor deu o nome, humanidade... Não é possível, e não creio que o louco dessa estória seja o jovem Hamlet (2). Sua loucura era apenas revoltar-se contra – como o próprio pronunciou - “esse mar de calamidades” que os sensatos ainda ousam chamar de vida. Estando preso a essa minuciosa obra de traições e morte, que homem sensato não se revoltaria? Obra essa, nada mais que uma réplica imperfeita de uma realidade ainda mais fétida.

Sempre senti diante da vida – esse quadro fúnebre – a mesma insatisfação de Hamlet, e as mesmas dúvidas. É quando o mundo impõe com furor o “ser”, mas o pouco de sensatez que nos resta aconselha “não ser”. Ser, ou não ser? Diante das dúvidas e calamidades da vida, a morte parece ser a única a apontar um caminho. Todavia como o próprio Hamlet deixa claro nesse parágrafo citado (3), a morte é apenas outra pergunta, uma insegurança, não há certezas, assim deixa de ser uma alternativa.

Alguns como Hamlet, apenas incertos diante da morte, ou aqueles teimosos o bastante e insistentes em rejeitar as formas e formas da vida, ou do mundo, não se deixando moldar; esses inconformados são aqueles a quem os homens chamam de loucos, cuja única alternativa sensata é não se conformar, não se fazer um mero produto. Em seus corações, são construtores da cidade fortificada de Canudos, imunes ao sertão, fazendo dele e da morte aliados e nunca entregues as forças e as forcas que os cercam.

Sem orgulho algum, percebo que desde adolescência temi a loucura. O medo que nossa vida seja uma literatura infantil de patinhos feios, nos faz aceitar, ou conformar-se, ou melhor, formatar-se a todo esse mar de calamidades e misérias que já não irritam os olhos, pois o homem aprendeu a indiferença... Sim! Na verdade era essa palavra que procurava para melhor me expressar: “indiferença”... Afinal ser diferente é sinônimo de loucura e rejeição, e quando uma vez entregue a desenfreada busca pela aceitação, fazendo-a vital, indispensável, necessariamente opta-se pela indiferença. Homogêneos indiferentes!

Perante os senhores dos homens, doido é aquele ao invés de fazer da breve vida um momento de conforto - como essa pessoa não sabe o que faz – resolve revolutamente confortar a outros. Loucura é acreditar nos sonhos, ao ponto de vivê-los na realidade. Poucos como Dom Quixote, são insanos o bastante para acreditar que os heróis ainda vivem. Poucos são tão ausentes da realidade, na medida suficiente e devida, para crer na honestidade, coragem e amizade. Loucos porque ainda vêem donzelas e ouvem a voz do horizonte, convidando-os para eternidade. Alguns poucos como Dom Quixote ainda sabem acreditar com tanta veemência, tanta... que sua fé envergonha nossa religião materialista e sem sonhos.

Sábios loucos, sabendo que lhes falta um parafuso na cabeça, decidem não ouvir a maioria. Alguns não têm ouvidos para os próprios pais, alucinando um dever a outra paternidade que julgam divina, e depois de alguns risos... caminham descalços sem suas quatro rodas, como fazem os loucos, buscando a felicidade em lugares bem distintos das vitrines e caixas eletrônicos. Talvez esses doidos encontrem a Deus, entretanto, certamente não encontrarão o deus lógico da humanidade sã. Lunáticos de olhos fitos no longe céu e suas estrelas, a procura de um Deus além... Além dos delírios esquizofrênicos humanos, mais que uma doce ilusão confortável, um ser real aos sentidos, um Deus dos loucos.

No que é pertinente a respeito desse Deus, sabe-se que sua loucura foi diagnosticada pelos alienistas do dia a dia, afinal, esse Senhor, simplesmente ausentou-se das lógicas e não se submete a tradições e culturas, sendo assim, era de se esperar que todo aquele, Deus ou homem, que escape das fronteiras do entendimento humano, venha a ser, de maneira incontestável, nada mais que um louco. A sabedoria dos homens, pobre e frágil, e apesar de tantas tentativas, foi incapaz de abraçar esse Deus com seus braços curtos, então decidiu expeli-lo como a um organismo estranho em seu corpo.

Foram dadas mais chances de aceitação a esse Deus, as sagradas religiões construíram toda uma cultura ao seu redor, e foi inútil! Seus rituais já não o agradavam mais e suas gaiolas não puderam prendê-lo em seus manicômios, como normalmente se aprisiona os loucos.

A religião é como a tola criança obstinada a agarrar o sol com a mão, o adulto sábio, todavia, já é grato pela luz que o sol lhe envia, luz que aquece e dá sentidos aos seus olhos. O sol não foi feito para ser entendido ou tocado, ele nasce para encantar, alegrar, dar vida, e se põe para os homens esperarem sua volta, para que sintam saudades.
A teologia é a criança tola que mais parece cega na tentativa de fitar o sol.

Diferentes do Deus louco, existem os deuses considerados normais; estes são como animais outrora selvagens, agora domesticados que ao menor comando do homem cantam como passarinhos, ou mordem como cães raivosos. Deuses cuja lógica humana explica com maestria perfeita quem eles são, e os rituais prevêem fielmente suas vontades, dessa forma foi fácil manipulá-los. Enfim, a humanidade compreende esses deuses, tanto quanto compreende os próprios homens. Assim talvez se possa criar uma nova definição para loucura:


Loucura vem a ser tudo aquilo que o homem não pode manipular, inclusive Deus. Deus é loucura, assim fez-se Deus apenas dos loucos crentes nessa loucura pregada e, somente esses acusados por ouvirem vozes, possuem ouvidos sensíveis para ouvir sua límpida voz. Só os lunáticos que vêem o invisível, deslumbram a eternidade quando olham o horizonte. Só, apenas e somente os enlouquecidos livres, tornam-se, em virtude da sua insanidade, escravos do amor e tiram as sandálias para caminhar. Só os hamlets desses dias, são capazes de não se conformar com esse mar de calamidades e se chocar contra suas ondas furiosas. Apenas aos quixotes sonhadores, foi dada a fé que remove as montanhas. Loucura o desconcertante confronto de meras idéias... é o intangível Deus descalço a caminhar por entre os homens, em instantes... o mesmo Deus em simples desenho aos traços de uma cruz, seu amor define a loucura!

Sem temer os manicômios e os alienistas, revelo-me louco, e o que prego em palavras presas ao papel não poderia ser mais que pura e apenas loucura.

Castro Lins



“Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós que somos salvos, poder de Deus. (...) aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios.” Apóstolo Paulo (I Coríntios 1: 18-23)



1-Referência ao livro “O Alienista” de Machado de Assis.

2-Referência ao livro “Hamelet” de Willian Shaskespeare.

3-Décimo nono parágrafo, contido no Ato Terceiro, Cena I do livro “Hamlet” de Willian Shaskespeare.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Surpreendente Descoberta



Assim disse Rubem Alves (paráfrase): “Na maior parte do tempo somos inconscientes do ar que nos dá vida, mas quando prestes a nos afogar ele é a única coisa que nos vem à cabeça”.

Algumas descobertas são como engrenagens capazes de deter, por alguns instantes, os ponteiros giratórios do nosso relógio da vida, todavia elas não podem pará-los. Já diziam que o tempo não pára, ou que a vida é breve, mas é intrigante, a meu ver, o quanto que uma “simples” descoberta pode causar mudanças não tão simples na vida de alguém. Falo a respeito da pessoa que de repente descobre em si uma doença terminal, para alguns, a partir desse momento a vida muda todo o seu curso anterior. No entanto, a descoberta que “somos pessoas terminais” não é motivo de surpresa, a convir que essa é uma simples descoberta mesmo quando tardia, isso por ser uma verdade irrevogável. As doenças são apenas lembretes colados em nossas geladeiras, quando inoportunamente eles nos chamam a atenção, percebemos algo escrito em letras grandes: “SOMOS TERMINAIS”.

O que mais intriga é saber que a percepção de que a morte se aproxima, ironicamente, nos lembra da vida outrora ignorada, e nesse instante até adjetivos são outorgados a ela : breve, curta... Os valores invertem-se, e a forma de medi-los já não é a peso de ouro, ou a leves notas de papel. Agora o que está cotado em alta é o valor das pessoas... Sem motivos ou apelos emocionais, passamos a indagar a existência de um Deus... Ao pôr do sol, o furtivo entardecer deixa a nós uma saudade nunca antes sentida... Tudo isso deixa entender descobertas já não tão simples como a anterior, surpresas para além do ordinário. A descoberta da vida é surpreendente, não a da morte! Todavia a relação entre ambas é indissociável, necessita-se antes do inadiável término dessa vida, saber a verdade que “somos terminais”, e se assim o for... a vida deixar-se-á ser encontrada antes da morte, e talvez, simplesmente permaneça após ela, na surpreendente descoberta da vida eterna

Castro Lins

domingo, 1 de novembro de 2009

Onde está a mudança?



Um alguém cujo nome já não me recordo, contou-me algo curioso:
"certa vez uma ousada jornalista resolve entrevistar Martin Luther King em meados de seus protestos pelo fim da discriminação racial nos EUA. A intrépida jornalista diz, (paráfrase minha):
-Senhor Martin, qual a real validade de sua luta em favor dos negros do nosso país?Pois mesmo depois de tantos feitos e protestos... ainda não conseguimos ver resultados, os negros continuam tão discriminados e oprimidos quanto antes, enfim, onde está a mudança? Então ele respondeu com uma serenidade quase esmagadora:
- Tens razão senhorita, até agora só conseguimos mudar alguns corações.
Um dia disseram-me, que eu não devia me conformar com esses tempos maus. Entreguei-me a minha empolgação alternada com horas de desesperança, na tentativa um tanto falível de mudar o mundo. No fim acabo por perceber o quanto fui mudado, é irônico, mas na verdade... quem mudou fui eu. Perguntaram-me: "Onde está a mudança?"A
penas sei que não sou mais o mesmo.
Castro Lins

domingo, 25 de outubro de 2009

Carta - um pouco sobre palavras e amor


Carta - um pouco sobre palavras e amor

Cartas me lembram romances, boas novas e seus mensageiros. Jesus é uma carta de amor, o Verbo, que o próprio Deus escreveu a punho e endereçou aos homens. E dentro desse romance sem igual, nós – falo a cristãos - somos simplórios carteiros, cujos pés são formosos por anunciar esse amor. Não menos importantes na história, pois também somos os amantes e filhos aos quais o Noivo e Pai destinou essa correspondência que cruzou os céus e os tempos até chegar aos nossos pobres ouvidos, e até infiltrar em nossos, outrora, petrificados corações.

Não sei se diante de ti, leitor, já pude justificar minha carta – é o que estou tentando fazer até agora. Permita-me agora escrever uma carta de amor, como se esse computador fosse pluma negra e sua tela meu papiro. Como se o amor estivesse mais perto do que longe, e mais real do que parece... Sinto-me a vontade quando escrevo, as palavras me cercam, protegem-me, estando elas sempre sujeitas não a minha vontade apenas, mas aos meus vivos e involuntários sentimentos, esses, na maioria das vezes, não se sujeitam ao meu querer. Eles são carregados nesse trem de palavras como uma longa locomotiva que percorre os montes e as horas, viajando até encontrar os desejados olhos da menina, a afortunada na qual os sentimentos e palavras se destinam ainda informes na mente do poeta. Cartas... elas sempre são seladas pelo receio por não poder estar ao lado da pessoa a quem as mesmas são destinadas. É como uma falível tentativa de alterar um destino presente, ou um alento para melhor aceitá-lo. A distância entre seres cuja proximidade fez-los um ser somente, que lógica pode explicar essa desventura da vida? Ainda teimo em aceitar mesmo a mais racional das respostas para essa pergunta.

Assim, resta apenas as cartas e seus perfumes de aromas para os olhos, essas narinas sensíveis da alma romântica. Não sei da minha engenhosidade para escrever uma carta, todavia algo me diz em voz sem som, internalizada, incomodando-me e creio que devo começar assim: “Mando a ti minhas palavras que escolhi com o mesmo carinho de quem colheu vistosos e vermelhos morangos. Palavras carregadas desse involuntário sentimento. A elas não existem longos percursos, nem pedras no caminho, elas sabem voar como um pássaro mensageiro, e sem tardar, logo não serão minhas palavras, serão unicamente tuas. Um presente, pois é para ti meu verso. Sabendo disso, implorei ao Senhor Logos seus mais preciosos verbos, os quais são desconhecidos dos dicionários. Palavras mágicas que falam mais do que dizem, e dos desapercebidos roubam lágrimas. Apenas um destes tais verbos mágicos visto aos olhos, corresponde a diversas e milhares de palavras postas em sonetos,cujas métricas não suportam tamanho amor quando visto ao coração.

Tenho comigo alguns bons verbos destes, e te ofereço. Eles são presentes do Senhor Logos, em virtude, são de indescritível valor. Agora peço para que feche os olhos e tente ouvi-los, não há tinta que os transcreva. Tu precisas senti-los, é mágica! Todavia devo adverti-la que para lê-los é preciso conhecer em profundidade a língua dos loucos apaixonados, é importante que se vá a sequidão das lágrimas. Língua de sobremodo mais prefeita que o dialeto dos anjos. Língua que o próprio Senhor Logos trouxe a existência e fez questão de ensinar aos homens que tinham ouvidos para ouvir.

Devo confessar que ainda estou sendo alfabetizado nessa língua, mas já aprendi soletrar teu nome para fazer-te mais perto de mim. Clarice Lispector na tentativa de graduar-se nessa língua, disse certa vez: “A palavra é meu domínio sobre o mundo...” Na verdade, creio que a palavra exerça um domínio sobre mim, pois para aquela capaz de dominar um mundo, com menos esforço dominará um homem. Quero dizer apenas que desconheço a forma de escrever o que sinto por ti, – mau escritor de cartas sou - simples palavras não suportam tanto, então procuro por socorro nas palavras mágicas que o Senhor Logos incumbiu-me de guardar. Deves entender que elas não são escritas com tinta nem presas a mal traçadas linhas, são tatuagens eternizadas nas menininhas dos teus olhos, apenas eles,teus olhos, podem lê-las agora, se assim tu desejares. Só nós podemos soletrá-las e somente só a nós, cabe seu significado. Se fores capaz de acreditar nessas minhas palavras, esse é o sinal vivo que elas existem e não são uma alucinação de minhas loucuras, e já mais real ainda são essas emoções que elas, em sua magia, carregam consigo.

Clarice Lispector entendeu bem a semântica dessa língua quando diz: “Ela acreditava em anjos, por acreditar, eles existiam...” Verdades tornam-se de verdade apenas na mesma medida da nossa fé. Deixa-me tentar ser mais simples... Dou a ti minhas preciosas palavras mágicas, poderosas o bastante para romper o tempo e o espaço criando um caos a olhos de outros, mas uma primavera de morangos a sua destinatária e seu remetente.. O que elas dizem? Não me faça essa pergunta! Depende do que teus olhos vão ler. O destino sujeita-se agora as vontades da destinatária, o mesmo ocorre com o tempo. Bem sei que tenho amado na conjugação do “presente”, afinal, não sabes que o amor sempre é? Pois foi a eternidade a primeira a conjugá-lo dessa forma, e a partir do tempo em diante o homem tem cometido muitos erros de conjugação.

O débil ser humano, não entende que o amor as vezes se cansa e parece em constante mutação... mas nunca deixando se perder o que ele é, e apenas acrescentando, ou crescendo – seja como melhor tu possas entender - mas sem deixar nada no passado. De modo que nada se perde, não se substitui, apenas se uni de forma semelhante a uma construção. Talvez eu me faça entender com um exemplo: Quando falo de um amor que embriaga a alma de dois seres, um homem e uma mulher, mas que outrora, o mesmo amor fazia-se nos moldes esculturais e lindos da amizade entre esses dois seres, uma menina e um menino, refiro-me então ao amor que cresce junto com eles em metamorfose, e já em maioridade expressa-se ainda mais profundo e avassala um ao outro de formas distintas da infância suave entre amigos. Todavia esse amor nunca nem se quer cogitou deixar de ser a amizade de tempos anteriores, nele nada se tira apenas se recebe, por isso nada nele deixa de ser.

Enfim, depois de tudo exposto diante de nós nessa minha, talvez não tão clara, carta. Suspeito que podes até achar que não estou a ser sincero, já me peguei pensando isso também. Concordo em suma com o caro Fernando Pessoa quando o mesmo diz “ ser o poeta um fingidor”. Contudo, dessa forma seja o sonho também um fingimento! Pois ele não é real, estando tão longe da matéria. Dentro do que creio ser real, estão os sonhos junto a muitas outras coisas que não posso ver... “

Essa carta é tão real quanto os sonhos são. Se destina aquela menininha dos olhos, invisível, contudo bem audível, de forma que sua voz é única capaz de ler tais palavras mágicas que o Senhor Logos recitou aos ares e deu a mim em secreto. Essa menina é tão real quanto os sonhos são, ou quanto eu possa acreditar neles... Sobre palavras... sei apenas que de extremo valor são as palavras que nos ajudam a entender quem somos, sem iguais são aquelas que nos ajudam a entender quem Deus é. Sobre amor ... apenas pelas palavras mágicas pode-se escrever em veracidade a seu respeito. Sobre cartas... feitas de palavras postas em seu papel. A carta sou eu, feito de palavras, porém postas em minha carne. Ambos – a carta e eu - apenas meros veículos do Verbo... que as vezes falam palavras de amor.

Castro Lins