quinta-feira, 1 de março de 2012

UM ESTUDO EM ROMANOS - Segunda Parte






"Esse texto é uma adaptação escrita, inspirado na mensagem original
ministrada na Primeira Igreja Batista em Seropédica."


ESTUDO EM ROMANOS - Segunda Parte

Verso 33- 34: “Quem intentará
acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.

Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu, ou, antes, quem ressuscitou de entre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós.”

As verdades desses versos parecem óbvias para qualquer cristão, todavia, nossa mente, sempre amedrontada pela culpa, recruta erros e acusadores a todo instante, esquecendo quem nos advoga e justifica. Taís palavras são repetidas ao longo de toda obra escrita do apóstolo de modo a torná-las centrais para sua doutrina,
porém, mesmo dessa forma esses versos, ainda, podem se apresentar como perguntas comuns, sem a retórica das perguntas anteriores, sem certezas imprescindíveis, pois, no final, nos resta sempre a escolha indelegável:
interpretar para a vida tais palavras como certezas consideráveis, ou,
simplesmente, ignorar a retórica com a incerteza recorrente a qualquer outrapergunta comum.

O texto
continua a subir, como se progredindo a um clímax. Acredito que todas essas perguntas antecedem, pronunciam e anunciam uma outra de importância última. A essa pergunta Paulo dedica mais atenção, pois, antes mesmo de respondê-la, põe- se a listar possíveis respostas erradas:

Verso 33:
"Quem nos separará do amor
de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a
nudez, ou o perigo, ou a espada?”

Paulo
provavelmente se refere às ferozes perseguições sofridas pelos cristãos de seu
tempo e, não muito menos, também a todo sofrimento que nos assola hoje. Será,
afinal, o sofrimento poderoso o bastante para nos separar do amor de Cristo?
Não é ainda nesse versículo que ele responde;

Verso 34- 35:
“Como está escrito:
Por amor de ti, somos entregues à morte todo o dia; fomos reputados como
ovelhas para o matadouro.
Mas, em todas estas coisas, somos mais
do que vencedores, por aquele que nos amou.”

O teor
dessas palavras perece mesmo fatalista, apresenta a morte por sua presença todo
o dia, como a estar sempre a nos cercar. Ao mesmo tempo o texto compara
cristãos a frágeis ovelhas a caminho do abatedouro, rumando sempre em direção a
morte. Não é nada difícil compor um tom triste a essas palavras. Se existe algo
temível nessa vida, certamente, é a morte com todo seu furor; Será ela poderosa
o bastante para nos separar do amor de Cristo?

O que mais
impressiona nesse texto é o efeito de ligação da expressão: “ Em todas essas coisas”. Pois ela faz um paralelo surpreendente entre o sofrimento e a vitória, como se ambos
caminhassem lado a lado, no entanto, nossa tendência natural é separá-los, como
se isso de alguma maneira fosse possível, e não é. O sofrimento é imanente a
vida e só quem ignora a dor do seu semelhante pode negar o sofrimento. As
igrejas inocentemente deturpam o significado desse texto quando afirmam que “somos mais que vencedores” sem antes
dizer: “em todas essas coisas”. É
justamente imersos na tristeza inamovível desse mundo, é cercados pela morte a
nos sondar todo dia, é presos a um contexto de sofrimento e dor... é em todas essas coisas, e outras mais, que somos vencedores, ou ainda, mais que vencedores por meio daquele que nos amou,
a saber: Jesus o Cristo.

Para ilustrar: Conheço a história de uma mãe
que por um longo tempo passou por muitas privações para custear os estudos de
uma filha. Ela trabalhou bastante, por vezes foi humilhada, porém, enfim chegou
o dia da formatura dessa filha, e esta fez para a mãe um lindo momento de
gratidão e homenagem... A mãe se emocionou bastante e disse:

“Se eu pudesse imaginar que viveria tamanha
felicidade e se eu pudesse imaginar... se soubesse que seria esse momento tão
especial... Passaria por todo o sofrimento que passei de uma forma diferente,
de uma forma mais firme e esperançosa, eu passaria pela dor como uma
vencedora...”

Eu devo
acrescentar a história quando digo que se nós cristãos pudéssemos imaginar... Se
nossa pobre mente pudesse conceber por um instante o que nos espera em Deus...
Passaríamos pelo sofrimento dessa vida como vencedores, com muito mais vigor e
esperança.

A esperança
que nos move por entre os pesares dessa vida é essa, como disse Karl Barth: “Do
mesmo modo que somos co- participantes das dores de Cristo, também somos co-
participantes da sua glória.”

Ou melhor
expresso pelo próprio apóstolo nos versos 17 e 18:
E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros, também,
herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos,
para que também com ele sejamos glorificados.
Porque, para mim,
tenho por certo que as aflições deste tempo presente, não são para comparar com
a glória que em nós há de ser revelada”.

Não!
O sofrimento não pode nos separar do amor de Cristo! Mas sou eu quem esta dizendo antecipadamente,
pois Paulo parece escrever um poema antes de responder a essa pergunta:

Verso 38- 39:
“Porque estou certo de que, nem a morte,
nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o
presente, nem o porvir,
Nem a altura, nem a profundidade, nem
alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo
Jesus, nosso Senhor.”

Chama
atenção como esse verso é iniciado com uma certeza manifesta. Antes Paulo
referia-se as dores desse mundo, agora, porém, se volta a forças de outro
mundo, a poderes ocultos, anjos, ou a avassaladora força do tempo que devasta a
tudo e a todos, mas de modo que nem estes, nem mesmo a vida com tudo que nela
há, ou a morte que varre todos os seres viventes, nem os céus ou a terra, nada
que um dia foi criado é forte a tal modo capaz de nos separar do amor de Deus,
que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

A certeza do amor de Deus, talvez
a única certeza que o homem precisa para viver. E diria ainda que a nossa
existência será de uma forma muita mais dolorida se nos faltar essa certeza.
Uma amiga, psicóloga, certa vez disse que, infelizmente, grande parcela dos
problemas relacionais, das violências domésticas e de tantos casos de abusos de
todos os tipos são recorrentes a pessoas crentes que nunca foram amadas por
ninguém, diz ela. Os piores males da nossa sociedade são reflexos da incerteza
desse amor. Lembro- me da única vez que vi meu pai chorar... Percebi por traz
da sua rigidez e intolerância uma criança alegando que ninguém a amava, nunca
esqueci esse dia em que enxerguei a real fragilidade daquele homem que não
sabia se relacionar com seus filhos.

A vida é um
bem perecível, ela passa com rapidez e não volta, logo, a maneira como passamos
por ela requer toda atenção. Podemos seguir por através dessa vida como órfãos abandonados em dias maus, imersos em um mundo onde o sofrimento não pode ser negado, ou, porém, podemos caminhar por entre a vida e suas dores como pessoas amadas,
naturalmente, incertos sobre muitas coisas, inconstantes, todavia tomados pela
constatação de que o amor de Deus não nos larga. De fato, nos dias de angústia,
fome e nudez, igualmente nos dias de dúvida, ou naqueles dias em que se deseja
nunca ter nascido, por certo será a certeza desse amor que irá nos suster, irá
guardar nossa esperança e, se, de algum modo vale a experiência deste que lhes
escreve, essa certeza foi e continua sendo a que resta a ele e, por fim, o mantém
vivo!

Castro Lins


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fim do Mundo



Fim do Mundo

Uma cidadela do sudeste brasileiro foi tomada por horrível pestilência. Uma
enfermidade carregada pelo vento e cujo contágio feroz matou famílias inteiras em poucos dias. Prefiro aqui não descrever sintomas, pois estes, de modo eram tão repulsivos e mortais, que seria, da minha parte, um desrespeito a
humanidade de tais pessoas. Para além das dores descomunais o medo levou muitos
a tentativa de se isolarem em suas casas, pois, qualquer mero contato poderia
ser o último. As casas tornaram- se ilhas, refúgios ou, sobretudo, consideraria
cárceres. O terror confundiu mães quando estas cerraram suas portas para os
filhos contaminados e por fim, a cada casa por onde restou alguém, pequenos
mundos nasciam a parte da insuportável realidade lá fora. Entre esses estava
uma pequena igreja com seus portões fechados, abrigava alguns poucos membros
seus e mais os lideres daquele rebanho remanescente:

“Meu
amigo, Jean, Pastor desse rebanho comigo, diz, ainda sereno, que esse é o fim
do mundo, devo acreditar? É irônico, não? Esses talvez sejam meus últimos
momentos de vida e ainda não sei ao certo em que devo acreditar. As dúvidas
continuam em centenas, mas todas estão recolhidas hoje, pois uma certeza me
move a escrever- te... Deus! Apen
as eu e tu sabemos o quanto esperei por esse
dia. Procurei evidências tuas em cada dia e em toda parte, esperei ouvir tua
voz e nada! Cumpri todas as regras e rituais, professei como verdade cada palavra
de fé, ajoelhei- me, e estava sozinho, onde tu estavas? Segui todos os passos
que os homens um dia disseram que me levariam indesviavelmente a ti, mas não te
vi mesmo de longe, talvez tenha me perdido. Fui a cada cidade santa a tua
procura e conclui que não te encontravas em templo algum, por quê? Nada passou
de êxtases momentâneos, ou de uma relis obediência a moral humana. Nunca fomos
assim tão próximos, não é verdade? Apesar dos meus sermões que dizem ao
contrário. Hoje, porém, minha busca encontrou o seu cessar e somente agora te
vejo mais claro. A noite se foi e estou na penumbra que anuncia o dia, pois aos
poucos te desvelas para mim, meu Deus. Te postas diante de mim e eu sem demora
vou ao teu encontro...
Nunca
antes havia imaginado a morte dessa maneira, pois caminho a ela com toda a vida
que tenho, de uma forma que a tua cruz se preenche de motivo, de razão de ser.
Aliás, antes, era a mim inconcebível encontrar essa razão, ou a função que te
levou a morrer como homem sendo tu Deus. Como imaginar o Deus indescritível na
menor e desprezível imagem humana? a saber: Deus na pessoa de um servo, ou
ainda de um escravo. Invertes com tua cruz todos os valores, afastas as
virtudes e as bem aventuranças de toda forma tirana de poder, também do ouro,
ou da sabedoria e encaminha a felicidade para o servo, surpreendentemente, para
o pobre e para os teus pequeninos, sei que somente Deus ousaria tanto.

fora, de onde ecoa a tua voz, há pessoas que perecem, sofrem, sabes bem que a
realidade não é nada boa. Eu te pedi uma simples cura, e tu me respondes para
além e concedes a mim um milagre, afinal, o teu maior milagre sempre foi
resignificar a vida, girá-la para tua direção. Perdão por tanta demora, foi
difícil perceber, mas logo te vejo perto. Deus, sei que estás a minha espera
logo após esses portões, feliz como uma criança, vou ao teu encontro.”

Escritas
tais palavras ele se foi por entre os portões da igreja, logo a sua frente
encontrou a fragilidade das pessoas a sua espera. Foi ao encontro dos doentes,
dos aflitos a espera interminável por quem os consolasse. Carregava em manuseio
apenas a fé, seu dom, e partilhou- a para alívio dos cansados. Ávido por Deus,
o encontrou vívido e claro como sol enquanto servia aos necessitados. Ele,
Deus, sempre esteve lá aguardando um encontro, a sua espera após os portões da
igreja onde pessoas reais pediam ajuda. Dizia antes de morrer que o Deus servo
e crucificado é incompreensível enquanto estivermos longe do outro, isolados em
nosso mundo, em nossas ilhas, em nossas casas, pois em suma, Deus está sempre
um passo em direção ao outro.
A
carta a Deus foi encontrada sobre sua antiga cama, todos os membros da eclésia esperavam
o seu retorno. Os dias passaram e se foram, e aquele homem, simplesmente, não
voltou. Por certo morreu como qualquer outro doente tomado pela peste.
Entretanto alguém, por ventura, leu sua carta e a notícia se espalhou quando
aquela igreja, de vez, abriu os seus portões para ir a fora servir. Ora, como a
um contágio, o vento soprou e outras igrejas o mesmo fizeram.
Quando
a peste se foi, levou consigo esses cristãos que um dia foram chamados para
fora, muitos, ou quase todos, morreram. Porém, antes da morte, em liberdade o
Deus servo foi-lhes ao encontro e, ainda naqueles dias de tormenta, a tardar,
uma profecia se cumpriu: foi o fim de muitos mundos.
Castro Lins

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poema Identidade




Poema Identidade

Dos sonhos não me recordo,
E se quando ao dormir eu esteja
Dormindo quando acordo?
Se certeza por certo seja
Essa porque concordo?

Tais ilusões são paredes
E vela todo vazio aparente:
Nessa sociedade que crede
Em toda verdade que invente.

Quem a construiu que recolha
Os restos e esses sinônimos
Que me propõem em escolha
Esses autores anônimos.

Esses sonhos não são meus!
A sociedade é quem sonha
E sopra nessas narinas,
Pois essa minha alma tristonha
Não há de ser obra divina!

Do céu vejo minha janela...
Será Deus que se revela?
Ou será outro sonho dela?

Tão Grande sociedade! Como
Cabe em minha identidade?

Castro Lins

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

TEOLOGIA EM PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA



Teologia em perspectiva sociológica: uma breve passagem pelo Jesus dos evangelhos e a Igreja contemporânea

Por Rafael de Castro Lins




Em uma atenta leitura dos evangelhos e do cotidiano eclesiástico é possível identificar alguns fenômenos sociais estudados pela sociologia. Primeiramente no que diz respeito ao surgimento de Jesus em uma sociedade judaica cuja fidelidade a trama de significados definidos e aceitos em consenso deteriorava-se, os sistemas sociais encontravam-se num processo de não- reconhecimento por certo em virtude do agressivo domínio romano, a partir de então a sociedade começa a fabricar novas expectativas, a fomentar um messias e um novo reino. Esse foi um solo fértil para o nascedouro de Jesus que se apresentava como uma resposta a expectativas sociais e sua conduta proporciona-lhe a identidade almejada do messias, antes tínhamos Jesus de Nazaré, depois do ministério apresenta-se Jesus o Cristo. Acredito que pelo modo como o Jesus dos evangelhos se coloca acima da tradição e da legalidade, pela maneira que apresenta uma nova trama de significados que redefinem Deus e a existência humana e que são aceitos, pois é significativo o número de seus seguidores no decorrer dos tempos, em virtude desses fatores Jesus também pode ser descrito em termos do carisma weberiano.


Ainda que no seu momento inicial o cristianismo mais pareça um processo de alheamento grupal, construindo um submundo com uma cosmovisão própria, todavia logo expandiu e se tornou o novo pressuposto da sociedade. A mudança de significados nos evangelhos é tão clara que enquanto inserido nos moldes tradicionais da sociedade precedente Jesus morre como um criminoso, pois afinal foi crucificado, e após uma mudança, uma redefinição das verdades sociais, Jesus então é apresentado como o Salvador, o Cristo. A sociedade muda e com ela mudam também os nossos heróis.


Por outro lado, como é bem colocado por Peter Berger: “A extraordinária paixão de um movimento carismático raramente vive por mais de uma geração. (...) o carisma reintegra-se as estruturas das sociedades em formas muito menos radicais.” Acredito que talvez a extraordinária paixão do cristianismo tenha sobrevivido mais de uma geração, porém é inegável que este integrou-se as estruturas das sociedades e hoje grande parte sua é apresentada como a instituição chamada igreja que, assim como outros órgãos dessa natureza, padroniza a conduta humana, utiliza sistemas de controle e apresenta seus caminhos desejáveis como única opção plausível. Em termos doutrinários a igreja também é definida em parte por pessoas que já morreram, mas que suas palavras ainda continuam vivas entre nós, em outras palavras mais diretas, a igreja também possui um dispositivo que gera identidade e dispõe aos seus membros um sistema de significados a ser adotado que propiciará uma cosmovisão, uma explicação para sua própria existência e para o mundo ao seu redor. A alternação sofrida pelo indivíduo envolve um rito de passagem que chamamos de batismo, este abre as portas para uma nova identidade gerada e para o ingresso no ambiente eclesiástico. É possível observar que a igreja também possui mecanismos de reconhecimento que sustentam essa nova identidade e a preservam do não- reconhecimento externo, além disso, o grupo de referência eclesial sem dúvidas é decisivo nas opiniões e ações desse indivíduo.


Na verdade não pretendo construir uma mera crítica, apenas estou tentando observar a sociologia na igreja e nos evangelhos, essas palavras são apenas mais uma perspectiva. Particularmente acredito na necessidade das instituições e vejo o nome cristão como um termo que supera o simples papel social, na verdade creio que a fé vaza os papéis sociais e necessita fazer parte de todos estes que formam nossa identidade, para que não haja incoerências em nossas vidas. Nesse sentido a sociologia pode ser importante para o exercício do pastorado, também contribui para abrir nossos olhos sociais para todas as funções manifestas ou latentes que a igreja tem gerado e assim avaliar cada tradição e ideologia e, se preciso for, redefini-las, como fez Jesus. Para que nossa identidade seja conforme a identidade do nosso Deus revelado em Jesus.



Castro Lins

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

TEOLOGIA EM FOCO - A Biblía: Uma Biografia

A Bíblia: Uma Biografia

Karen Armstrong
Capítulos 1 e 2

Resenha
Por Rafael de Castro Lins

A premissa que norteia as informações desses capítulos nasce a partir da destruição do templo judaico no ano 70 d.c, pois esse foi um fato desencadeante de diversas escrituras judaicas e cristãs, inclusive da maior parte do Novo Testamento. A religião judaica sofreu ramificações, transformações que após a queda do templo intensificaram-se. Uma dessas reverberações foi o cristianismo que nasce como uma alternativa de interpretação do judaísmo, e vale ressaltar, ainda muito ligado a este. O movimento cristão nasce da necessidade de uma nova leitura das escrituras sagradas judaicas, uma hermenêutica que se aproximasse mais com uma realidade de conflito com Império Romano. Jesus surge e logo é abraçado por um contexto que carecia urgentemente de algo, ou alguém, que substituísse o que outrora foi o centro da religião judaica, a saber: o templo. A religiosidade dos judeus foi alimentada como efeito direto do conflito com Roma, portanto, a concepção de um messias fortificou-se, a expectativa do Reino de Deus foi fomentada, e o produto desse imaginário religioso ardente foi literário, tanto da parte dos cristãos como da parte dos rabinos judeus.


O cristianismo foi uma hermenêutica que se destacou entre tantas outras seitas oriundas do judaísmo, como a própria autora ressalta: “O cristianismo é uma proeza exegética onde toda a história de Israel foi redefinida”. A crença fundada numa tradição é reinventada quando enfim reduz a Torá, o templo e os profetas a uma sombra do Cristo. Enxergar o Cristo nas escrituras sagradas dos judeus foi um método exegético que perdura até os dias atuais e de certo modo fundamenta o cristianismo. Essa revisão da Torá funcionou como meio de legitimação de uma nova forma de enxergar e interpretar Deus, para cristãos e para os rabinos pós queda do templo.


Esse florescimento plural de interpretações nascentes do judaísmo foi tanto, que mesmo não se pode falar de uma única visão cristianizada, na verdade, a vertente cristã se ramificou em diversas compreensões a respeito do Cristo, por exemplo, as igrejas da Ásia Menor estavam desenvolvendo um evangelho de cunho mais apocalíptico distinto, em alguns pontos, da interpretação das outras comunidades. A pluralidade de opiniões que inventaram muitos cristos tem uma fonte comum, mas contextos diferentes. Enfim, cada Jesus era desenhado segundo as demandas que eram distintas em cada comunidade. De certa forma isso ocorre até os dias de hoje, de modo mais intensificado, a partir da reforma protestante quando as escrituras sem restrições novamente estiveram abertas para as mais possíveis interpretações.


Esse livro também esclarece que esse fenômeno de reinterpretação das escrituras sagradas não foi restrito apenas aos movimentos cristãos, os rabinos judeus também estabeleceram sua nova compreensão dos escritos sagrados, e esse novo modo de entender a fé e a tradição também foi aceito por muitos judeus, a Midrash é o principal exemplo dessa nova visão nascida no farisaísmo. Assim estabeleceram-se dois ramos Judaicos conflitando entre si pela verdadeira hermenêutica do AT. Nos meados dos anos 80 e 90 os fariseus tornaram-se oponentes a medida dos cristãos, fato que possivelmente explica a maneira negativa sempre atribuída aos fariseus nos evangelhos. Os dois movimentos se coincidem em alguns pontos de suas interpretações, de modo que tanto judeus como cristãos experimentavam a Shekhinah de Deus tendo como principio maior a compaixão para com seu semelhante. Pode-se supor também que a regra da compaixão seria uma forma de evitar novos conflitos com Roma, evitando assim mais tragédias. Então se tem um paralelo entre rabinos e comunidades cristãs, ambos os seguimentos em uma intensa construção literária e conseqüentemente conflitando entre si. Todavia, é interessante lembrar que esses eram novos escritos, novos testamentos que respondiam as necessidades de um povo violado pelo caos da guerra. Por outro lado, para corresponder como consolo a aquela realidade, muitas vezes, seja por cristãos ou por rabinos, a significação original do texto sagrado necessitou ser sacrificada, ignorada em prol de uma hermenêutica mais coerente as necessidades do povo. Esse também é, por certo, um dilema para teólogos e pastores hoje: ignorar o significado real do texto sagrado para assim atender as necessidades da sua comunidade atual, ou permanecer fiel ao significado original evitando relativizar uma verdade crida como sagrada?


O cristianismo prevaleceu sobre todas as outras correntes do período pós queda do templo, diversos fatores podemos supor para justificar esse fato, a partir desses dois capítulos: Primeiro revisando os escritos sagrados para atender necessidades latentes do povo. Segundo aderindo os gentios sem impor a eles o judaísmo. Terceiro opondo-se fortemente aos movimentos contrários. Quarto definitivamente sua adoção pelo Império Romano.


Castro Lins

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TEOLOGIA EM FOCO






CRISTO
UMA CRISE NA VIDA DE DEUS
de
Jack Miles

Resenha
por Rafael de Castro Lins




O paradigma que o autor evidencia para posterior formulações e teses, tem como base a o processo de transformação sofrido por Deus no decorrer dos tempos a partir das literaturas canônicas judaico – cristãs, e mais especificamente na transição de personalidade entre o Deus dos exércitos até o Cristo crucificado, ou seja, a passagem imprescindível do forte para o fraco. Deus é apresentado ao seu povo, Israel, após a saída do Egito, como Deus que é senhor de toda terra e maior que todos os outros deuses, não somente um deus nacional, isso porque a enormidade de sua força derrotou os egípcios – o mais poderoso império conhecido - em favor do seu povo escolhido... É importante a ressalva que esse sentimento de triunfo sobre as outras nações foi introgetado coletivamente em Israel. As conquistas militares do povo israelita demonstram o caráter personificado do seu Deus.


A forma que o povo encara seu Deus passa a sofrer um processo de mudança iniciado a priori nos momentos de exílios. Quando as conquistas cessaram e todas as expectativas e esperanças voltadas para o Deus dos exércitos frustraram-se, fez-se necessário aos poucos uma mudança na face, na pessoa desse Deus. Diante de um contexto que na prática estava além das forças de Israel modificá-lo, a saber, o domínio e poder violento do Império Romano, a ultima saída consistiu na premissa: se a realidade é imodificável, transforma- se então o Deus desse povo para contextualizá-lo sem retirar-lhe seu trono, em outras palavras, já não é por meio da guerra que Deus irá demonstrar ao mundo seu poder, e seu recurso a partir de então centraliza-se na personalidade mansa de Jesus o Cristo, segundo Jack Miles: “uma nova maneira de preservar a dignidade de Deus sem recorrer a guerra. O Deus da guerra está pronto para se tornar o Deus da sabedoria”. Os anseios do povo, dentro desse processo de transição, também se tornam outros distintos à vitória militar, agora são metafísicos tais como salvação, imortalidade da alma. Os heróis literários são vitoriosos não mais pelo viés militar, mas sim pelas suas virtudes, tal como Daniel. Esses são alguns fatores da transição. Todavia essas mudanças do caráter de Deus ganharam ênfase a partir do momento histórico mais favorável por vir, a saber: a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 da era cristã... Momento que emerge a necessidade de uma nova significação para Deus.


O cristianismo é concebido, na verdade, como uma revisão da identidade de Deus, e Jesus como um reparador dos seus erros passados. A restauração principal de Jesus ocorre quando este revoga para os homens a maldição da morte e abre, a partir de então, as portas para a vida eterna. O livro demonstra que Cristo é o resultado mais do que necessário de uma crise que ameaçou o nome, o trono, a credibilidade do Deus de Israel. Jesus é o Deus contextualizado, revisto, reinventado para garantia da vitória sobre o mundo. Jesus abre as portas para uma vitória transcendente que pode de certa forma demonstra a incapacidade de intervenção de Deus na vida real, isto é, mascara um fracasso militar, mas devolve as esperanças quando dirige o seu povo as moradas do seu Reino celeste. Jack Miles nós esclarece a esse sentido magistralmente com suas palavras: “Deus redefiniu a vitória e, ao fazer isso, redefiniu a si próprio”. A mansidão de Cristo contrasta inteiramente com o Deus dos exércitos e essa incompatibilidade provavelmente foi fator determinante para o nascimento de uma nova religião distinta da judaica, onde Jesus protagoniza a frente como o próprio Deus.
Castro Lins

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

IMAGENS




Imagens

Os sábios religiosos antigos acreditavam que espírito (pneuma) era um nome pelo qual os ventos atendiam, quando o espírito de Deus visitava um homem, era semelhante a um sopro, uma brisa, gélida talvez, que tocava a pele e penetrava na alma. O vento só é visto quando as folhas de outono dançam a sua música. Deus modelou o homem e quando decidiu dar-lhe a vida, soprou para dentro dele preenchendo- o com o espírito feito do ar, da respiração que vinha das suas entranhas, como se Deus doasse, deslocasse, o que guardava dentro de si para um novo recipiente chamado de homem.


O ser humano carrega o íntimo do seu Criador, o ser eterno do próprio Deus em seu corpo mortal. As pessoas andam pelas ruas asfaltadas e por entre shoppings e favelas sem imaginar que carregam o âmago de um Deus dentro delas. A crença no mito judaico da gênese, se real, pode mudar o curso da vida do seu crente, pois afeta de maneira direta as relações sociais. Poderíamos criar as mais belas utopias a partir desse credo, em outras palavras, sendo breve, realize: Quando que os assassinos poderiam imaginar que matar o outro, é como matar o Deus presente nesse outrem? Qual a sentença para o assassino de Deus? Imagine a grandeza da ética composta pela seguinte premissa: Praticar qualquer forma de mal a alguém que seja a imagem de Deus, é atentar mal contra Deus. Violentar seu semelhante, que o Senhor a sua semelhança o criou, é como esfacelar, desfigurar a face de Deus. Quem dera, para nós homens, se aquele individuo sujo, faminto, drogado, caído a margem da rua não fosse a representação viva do seu Criador... Quem dera, pois desse modo nossa pena seria mais branda, a responsabilidade seria minúscula. Como imaginar que o Pai de tudo criado tem fome e pede o que comer? E qual espécie de culpa seria essa que diria ao homem: Teu Deus teve fome, e não deste a ele o que comer.

Não há como negar o abalo causado por Jesus nas estruturas políticas e religiosas da sua realidade, e sua morte foi uma resposta, dessa sociedade, a altura do seu impacto social e espiritual. Jesus é o cordeiro de Deus sacrificado pelos pecados de muitos, crença que não nega que ele também foi um protagonista político de importância sem precedentes e procedentes, que o sistema romano achou melhor sacrificar. A crucificação de Jesus ensaia em moldes divinos, o que se repete diariamente em termos humanos. No dia a dia, de igual modo ocorrido com o Cristo, sacrificamos pessoas que são a imagem de Deus por razões políticas, imperialistas, econômicas e hipocritamente religiosas. Sacrificamos seus direitos a dignidade, a educação, a moradia, a fé saudável em favor dos interesses capitalistas, mascarados como sonhos de vida ou como liberalismo econômico, que não são sonhos próprios e muito menos plano de Deus, na verdade nada mais é do que a patologia consumista em padrões religiosos. Ao exaltar qualquer lei religiosa ou financeira, qualquer fim pessoal ou político acima da vida, é o mesmo que posicionar-los acima de Deus. A maneira que uma sociedade, uma igreja ou individuo responde aos direitos humanos mais básicos do seu próximo, diz respeito de modo concreto, a relevância ou posição que Deus ocupa na vida dessa pessoa ou desse grupo. Cada um que morre nas mãos do tráfico de drogas, míngua na fila de um hospital público, é como se Deus fosse novamente fosse açoitado, humilhado e crucificado por motivo do pecado humano, a saber: falta de amor ao próximo.

Todavia a ética judaica da gênese inebria a alma com quimeras que até parecem apontar para outro mundo. Todo ser é uma representação viva de Deus na terra, se real, esse seria o fim que qualquer forma de desigualdade e o início de uma aceitação das diferenciações que fazem de cada um especial ao seu modo. Servir a Deus sempre será tarefa impossível, ou fingida, enquanto o mito da gênese não nos convencer a ver Deus no outro, de modo que amando o próximo é a única forma real de amar a Deus, outra forma distinta dessa, é religião vazia. Se Deus for mesmo encontrado nos olhos dos filhos, na face dos pais, nas mãos do amigo, os relacionamentos por certos sofrerão uma transformação como resultado dessa fé. Aterroriza pensar que cada mal que fiz nessa vida, o fiz contra o meu Deus. Todavia alimenta toda virtude a movimenta o amor pensar que todo bem, cada pessoa que alimentei, cada sorriso que doei, cada palavra amiga ofertada, cada gesto, mínimo ou extraordinário, de amor, o fiz para o meu Deus. Pois o Senhor Deus presente impregnadamente em cada homem teve fome, teve sede, esteve nu, foi preso, e a maneira que reagi a suas necessidades prova o quanto o amo e valida meu cristianismo.

Castro Lins

E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1:27

(...) Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. (...)
O Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.(...) Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.
E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna
Mateus 25:34-46