sábado, 19 de setembro de 2009

Jesus aplicando EBI*!


Texto Bíblico: Lucas 10: 25-38


Jesus estava a caminho de um certo povoado, onde habitava uma certa mulher chamada Marta ( v38). Podemos supor, que durante esse percurso Jesus tenha sentado-se por alguns instantes sobre a sombra de uma bela árvore. Por que não imaginar que ele e seus seguidores fizeram um círculo para se olharem face a face? E como Jesus era sempre chamado de Mestre (v25), é bem provável que estava na maior parte do seu tempo ensinando. Os ouvintes - pelo menos alguns - eram pessoas íntimas do conhecimento(v25), pessoas cultas ( mestres em interpretar) que não deviam aceitar nada sem questionamento. Alguns com motivações duvidosas(v25), mas não se pode negar o interesse destes em conhecer mais sobre aquele homem intrigante. De repente eis o nascer de um diálogo e alguém do grupo levanta o braço com o dedo apontado para saciar sua questão: Mestre que farei para herdar a vida eterna?(v25)

Através do diálogo, Jesus naturalmente inicia seu estudo com uma pergunta de observação das escrituras: Que está escrito na Lei? Dando seqüência ao estudo, Jesus agora faz uma pergunta de interpretação das escrituras: E como interpretas?(v26). E como as perguntas de observação são sempre as mais fáceis, é só observar o que está escrito: “Amarás o Senhor, teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma, de todas tuas forças e de todo teu entendimento; e: amarás teu próximo coma a ti mesmo”(v27). Ironia Jesus pedir uma interpretação para uma autoridade em interpretar, um interprete da Lei. O mesmo, tentando justificar-se, fez uma nova pergunta: Quem é meu próximo?(v29). Jesus na posição de dirigente do grupo, resolveu usar um método de EBI criativo e propôs um historinha relacionada ao cotidiano da época e a realidade do seu grupo.(v30-35 )

Por fim, Jesus na intenção de trazer seu estudo para um âmbito pessoal da vida do grupo, termina seu estudo com um pergunta de aplicação pessoal quando integrada com a seguida resposta: "Qual destes três parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?"

E o intérprete responde: "aquele que teve de misericórdia com ele."

E como sempre ocorre no fim dos EBIs, sempre tem uma recomendação, citação, ou uma frase que confronta e nos faz refletir na vida, Jesus Diz: “Vai e procede tu de igual modo”.

Castro Lins



* EBI - Estudo Bíblico Indutivo. Método de Estudo da Bíblia muito utilizado em grupos da ABU (Aliança Bíblica Universitária) nas universidades.

domingo, 9 de agosto de 2009

As Estrelas Nos Lembram






Em lugares ausentes da história, antes dos limites do tempo sobre a vida, quando a face dos seres era uma imagem do desconhecido... Em terras do nada, lugar esse onde tudo é apenas imaginação... Como árvores de natal sem enfeites, não havia estrelas penduradas no céu... Antes do sol nascer pela primeira vez - talvez se a imaginação assim desejasse, haveria uma lua invisível sem astro algum para iluminá-la... Existiam seres, talvez humanos, talvez reais, seres que moravam na escuridão, cujos olhos eram bolinha inúteis imergidas nas trevas. Já diziam que os olhos são a janela da alma e a cegueira é apenas a alma que não reconhece a luz. Eles não conheciam a luz, pois não havia dia e o que chamamos de noite eles chamavam de vida.



Não! Mesmo assim, os olhos não eram em tudo inúteis, afinal, por eles a alma chora e manifesta quase em palavras, mas apenas em lágrimas, sua solidão. Caminhar e viver são dois nomes dados a mesma pessoa. Caminhavam sem sentido, pois seus olhos eram virgens que nunca conheceram a luz, todavia, posso imaginar que o simples ato de caminhar denuncia uma procura, ou posso usar forçosamente a palavra “esperança”? Sim, creio que devo usá-la. Porém, uma tímida esperança apenas, e nada mais.



Até que um dia... Não! Esse termo é mentiroso, pois até então não existia dia. Vou tentar novamente: até que... a imensidão escura se desfez diante de um imensurável ser que rasga o horizonte, pondo-se no céu como um rei e sentando-se em seu trono suspenso nos ares. A luz passa a habitar no mundo e caminhar entre os homens num encontro inevitável com os olhos... agora os cegos vêem! E os sonhadores aprenderam a olhar para o horizonte! O assombro de um recém-nascido fugido do escuro do ventre da mãe é ínfimo diante da admiração daqueles que deslumbravam petrificados o nascer do dia, esse visitante desconhecido. Peço encarecidamente um simples exercício de empatia: imagine-se como ser da noite que nunca contemplou a aurora da manhã, nem sequer uma chama a clarear, e de repente depara-se com o primeiro nascer do sol.

Outrora obscurecidos os homens não enxergavam sua face no espelho, apenas tateavam os rostos uns dos outros, era impossível reconhecer a si ou a alguém, mesmo próximo. Contudo, quero agora falar apenas do primeiro dia em que houve dia. Tamanha a alegria, o céu e o mar foram pintados de azul e as pessoas conheceram o infinito, muito além do limite da imaginação onde seus sonhos tateavam. Nesse dia o perfume das flores fez mais sentido. Nesse dia o homem conheceu as montanhas e viu-se pequenino. Nesse dia os olhos aprenderam a olhar nos olhos, e o amor nasceu forte como em pleno meio-dia. Houve vida até o entardecer. Até que... O gigante se moveu e parecia ser engolido pela terra, para alguns, porém, mergulhava no mar. A escuridão sem fim tragou a luz e cegou os olhos de todos. Com o cair da noite, o sol que nasceu parecia aos poucos padecer... morto, foi sepultado e se pôs.


Naquela noite a escuridão fez-se mais escura, e o medo postou-se mais visível. Peço novamente apenas mais um exercício de empatia: imagine-se perante a primeira noite, incerto se o dia outra vez nasceria. Talvez seja como o caso do cego que outrora contemplou o belo e suas cores, todavia hoje há apenas imagens de lembranças misturadas com saudades do que se foi. A humanidade caiu na incerteza do amanhã. Quando a noite não tem fim, não existe amanhã.

Eles choraram amargamente, mas alguns não deixaram desfalecer sua esperança. Nas trevas seus olhos não esqueciam a luz, como se o sol nunca houvesse se posto em suas almas. Outros, porém, viram na escuridão que os cercava um simples reflexo de suas almas enegrecidas. Eles amaram mais a noite do que o dia. Esperança é esperar quando o coração já possui o que se espera, mesmo ainda esperando. O que se espera é que venha plenamente o que já se tem em parte. O dia nasceu para aqueles que já tinham o seu brilhar em si e Deus fez deles estrelas, brilhando na escuridão, para lembrar os homens que a noite não é eterna, mas finda, e que o dia logo vem.


As gerações passaram e as estrelas ainda brilham, mas encantam a poucos. O sol nasce todas as manhãs como se fosse a primeira vez, mas poucos o aplaudem. Contudo, devemos convir, que o pôr-do-sol ainda é belo o bastante para roubar lágrimas. A saudade ainda acompanha todo entardecer, e quando escurece... já não sabemos mais a quem porventura se destina a saudade. Ouso perguntar: saudade do desconhecido? Sem demora, ouço a voz das estrelas a responder: “sabes apenas... saudades de Deus!” Enfim, não se angustiem a esperar – as estrelas nos lembram – breve o sol vai nascer.


Castro Lins


Num mundo em trevas, falar de estrelas nunca é bastante, sempre é essencial. Ofereço a vós, estrelas, em forma de consolo, essa tão simples - ou até mesmo infantil - historinha. Devo esse textinho a uma amiga bem distante dos meus olhos, mas bem próxima do meu coração, nunca duvidei do seu brilho... do sempre amigo... Castro Lins

.E falou-lhes pois Jesus outra vez dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Escultura



Não escondas o rosto,
Assim da vida...
Retiras...
Todo o gosto.
És obra esculpida,
És arte escultura,
Sou artista
Em loucura,
Desejando ser arte,
Tinta e versos
Para encontrar-te.
Apenas perto;
Apenas parte;
Parte da tua moldura.
E por amor
Que poeta criador
Não se faz criatura?
Mesmo Deus fez-se homem,
Escritor,
Ao mesmo tempo escritura.
Teus olhos
Dois sóis,
Puras, brancas nuvens,
Limpos lençóis.
Orquestra dos céus
Sua mansa, doce,
Límpida voz.
Os cabelos teus:
Mar negro,
És a mais perfeita
Criatura de Deus
Feita em segredo.
Sorria...
Teu mover de lábios
Encanta, embriaga,
Enlouquece os sábios.
Choro com ar divino,
Uma lágrima
Mergulha no mar
Faz dele... mais salino.
Tão doce até salgar,
Um beijo...
Enlouqueceria as ondas,
Seria cômico, estranho,
Nem imaginação sonda
Essa quimera,
Quem dera sonho.
Traços de menina,
Banha-se a bailar
Na chuva
Vinho de muita idade,
És videira,
Uva... felicidade.
Afasta-te!
Oh! infame
E vil vaidade.
Não devo tocar-te
Dizer o nome,
O amor fez-me covarde.
Já não há sons no piano,
As notas loucas repetem
Emudecidas: “te amo... te amo”.
Medo de compor,
Oh! minha linda partitura!
Apenas escultor
Que admira, tu safira,
A mais linda escultura.
Castro Lins

terça-feira, 28 de julho de 2009

Carta – Vento que sopra onde quer.





Lembro que quando criança morava num lugar cercado por pés de eucalipto. Logo atrás da minha casa havia uma floresta com macaquinhos saltando de galho em galho, um circo natural cheio de festa para uma criança cuja idade nem me lembro mais. No entanto, lembro do meu pai levando-me para mata com outros homens, para buscar algo que também já não me recordo ao certo o que era... Porém não importava as razões, a aventura iludia-me e seguir meu pai era como seguir um general. Seus amigos formavam o exército e eu era o soldado herói, o mesmo da televisão, apenas um tanto mais baixinho e com uma dezena de coisinhas grudadas em meu cabelo, pereciam uma certa espécie de carrapicho que dava muito trabalho para tirar depois. Nessas horas, minha mãe entrava em cena e arrancava cada coisinha puxando meu cabelo, – doía muito - mas garantia o final feliz da minha aventura na selva, o encontro inevitável com minha feroz imaginação.


Saudades da infância dos sonhos, quando eu ouvia o som assombroso do vento vindo de encontro aos eucaliptos. Orquestra que só os ouvidos refinados das crianças são sensíveis o bastante para degustá-la, definitivamente era lindo e ao mesmo tempo assustador para um pequenino. As folhas caiam em giros no ar e mereciam palmas. Minha mãe, ou talvez minha tia, me puxava pelo braço dizendo: “anda garoto parece bobo olhando para o vento”. Minha imaginação de menino perguntava a minha alma de bobo: “Será esse aquele a quem chamam Deus?” Lembro desse Deus! Falavam dele na reza anual na casa da minha tia, e estava certo que minha avó, cristã protestante, também havia falado nesse ser dito poderoso e grande. Naquele dia parece que fomos apresentados. Eu não tive a coragem de conversar com ele, pois todos diziam que ele era uma figura ilustre, então fiquei um tanto tímido. Também não conseguia enxergá-lo, era como aquele vento que apenas o sentia e ouvia seu choque com as árvores entres ares.

O som do vento entre eucaliptos... creio que o meu primeiro encontro em consciência com meu criador, como se a poesia olhasse para o poeta e dissesse: “oi”. Fora da minha posição de criatura, não sei qual seria a minha reação diante de algo assim. Todavia, agora posso supor os bons sentimentos que me invadiriam se um futuro filho meu, em suas primeiras palavras, pronunciasse um simples: “Papai.”

O tempo em sua obsessão de sempre nos destinar ao fim. Nunca esqueci esses eucaliptos que se foram dando lugar a tijolos e concreto. A rua ganhou asfalto e minha selva tornou-se selva de homens cheia de barracos e bares. Os macaquinhos se mudaram passando a habitar agora apenas em meus sonhos. Pessoas tristes agora moram atrás da minha antiga casa, toda aquela riqueza que eu tanto admirava tornou-se a pobreza que tanto me entristece. As aventuras hoje são desventuras de um homem que senti saudades da infância. Do muro da minha casa já não vejo verde. Agora vejo de olhos fechados, pessoas tentando esquecer de sua vida sem sentido, sem vento a soprar. Elas embriagam-se e se alucinam. O vento derruba seus barracos e a chuva desaba barrancos e inunda suas casas.

Para que tolos como eu possam lembrar dos antigos macaquinhos, esse lugar hoje se chama “Morro dos Macacos”. Agora homem, vejo que aos poucos o vento parou de soprar, os eucaliptos se foram. Descobri que meu pai era meu padrasto e como eu queria sentir novamente as incômodas coisinhas grudadas no meu cabelo, vendo minha mãe arrancá-las depois de mais uma aventura. Cresci e vi tudo diferente, já não sou leve o bastante para deixar ser levado pelo vento. Fui para universidade para aprender não ser mais criança e perder minha alma de bobo. Hoje corro atrasado entre os sinais de trânsito, e meus ouvidos estão ensurdecidos com a música que a vida me obriga a dançar.

Nesses últimos dias sentir-me sozinho, como de costume, gosto de caminhar em dias de solidão, foram tantos passos para fugir dela que de repente me vi cansado e sentei. E como alguém que estava surdo desde infância, em milagre meus ouvidos se abriram. Assustado como uma criança, eu ouvi novamente o sopro avassalador do vento entre os eucaliptos, logo atrás de mim. Nossa! Era Ele novamente! Deus! Agora, desde aquele dia quando criança, já um velho conhecido. Pai e amigo de outrora que, porém, naqueles dias eu indelicadamente havia esquecido. Ele era o mesmo dos dias passados, tudo se foi: as árvores, os macaquinhos, as rezas, mas ele não.

Percebi que não estava sozinho e nunca estive. Talvez, por horas de anos, eu tenha estado surdo para o som da sua voz que sopra onde quer, e cego para enxergar as folhas caindo das árvores, todavia não estava só. Nem no instante mais insignificante de minha breve vida. Depois da nossa primeira apresentação, agora com um pouquinho mais de intimidade eu conversei com ele abertamente. Foi um bom papo, falei das rezas da minha tia e a gente riu juntos, também choramos juntos quando eu falei das dores das pessoas que moram, hoje, atrás da minha antiga casa.

Aquele era um dia de páscoa, foi inevitável lembrar da cruz e nesse instante, como alguém que desperta de um sono milenar, o vento soprou em meus ouvidos como um sussurro suave: “ Ainda achas que não me importo com a dor dos meus filhos? Ainda pensas estar sozinho?”. Não tive respostas, mas acho que chorei escondendo o rosto das pessoas que passavam próximo a mim. Acho que elas me tinham como louco. Não bastante, lembrei de tantas boas pessoas, que as chamo de anjos, enviadas de Deus para sarar tantas vezes minha solidão. Mas os anjos, diferente de Deus, sempre na hora certa, se vão. Não sei, talvez eles voltem para o céu. Mas deixam conosco algo lá de cima que chamamos de saudades. Não foi por acaso, nem de forma forçosa. Eu simplesmente caminhava pelo Campus me sentido triste, quando ouvir o forte som do vento a cruzar os eucaliptos do ginásio de esportes. Lembrei-me da minha infância, chorei e depois que de todos os sentimentos que contei, sorri e agradeci a Deus pelo seu sopro que desfaz a neblina da solidão e forte o bastante que dá vôo para os anjos com suas asas. Saudades dos bons amigos e de uma amiga em especial a qual dedico essa carta, obrigado pela sua amizade espero não te ver bater asas. Do sempre amigo... Castro Lins

A Constante





Como já dizia um bom amigo:
“a constante universal da vida é a tristeza”.
A vida em sua cômica maldade enche seres a ser e sentir ilusões, apenas para em risos roubá-las de nós bem lentamente ao longo dos anos. É como dar presentes a uma criança e receber dela um abraço agraciado, logo em seguida, em plena frieza, tomá-los de volta deixando o pequenino apenas confuso. Restando-lhe em sua fraqueza diante do adulto, apenas o choro. Não abrace a vida nem lhe oferte sorrisos, no fim só resta o silêncio das lágrimas. O choro é uma constante. É isso que vejo quando ando nas ruas.
Temo - ouso falar que poucas vezes isso me ocorreu. Temo não encontrar um final feliz para o que escrevo.
Não encontro, pois a tristeza é uma constante, que se alimenta da inconstância da felicidade.
Infeliz felicidade, não dura.
Melhor se não houvesse de haver.
Melhor seria apagar com um borrão sua existência. Enfim, se sou infeliz é porque a felicidade se foi, antes se não houvesse de vir, assim não haveria o choro pela ida.
Ora, quero dizer apenas algo bem popular “tudo passa”.
O que revolta é alguém dar um brinquedo a uma criança e depois tomá-lo de volta. Sensato seria antes não dar. Perdoem meu comportamento de criança. Apenas temo que a vida seja cúmplice do fim, afinal a mesma se entregará a ele um dia.
Chego à conclusão que só há dor por haver alegria, ou amor. Preço justo? Sinceramente já não sei.
Tenho repensado esse sentido. Os mártires que me perdoem.
Essa montanha de altos e baixos vem me causando enjôo, a cada dia me convenço do desejo pelo fim dessa viagem...
Peço a Deus que esse final que escrevo, não seja uma constante no que eu venha a escrever. Dessa vez me faltou um final feliz.
Castro Lins

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Carta – Surpresas do Caminho



Sempre brinquei com meus amigos dizendo que, se porventura, seguir a Cristo for apenas não beber, não fumar e não namorar, devo ser crente desde que nasci! Concordo com C.S.Lewis quando ele troca o termo conversão religiosa para: “surpreendido pela alegria”. Quando criança minha avó sempre falava a respeito de Cristo, sem perceber eu já estava caminhando com ele. Talvez não da forma mais tradicional, pois meus pais não freqüentam instituições religiosas apesar de declararem-se cristãos. Acho que sempre fui um garoto meio covarde, através do medo ou do respeito, eu sempre rezava o “Pai nosso” antes de dormir e me sentia culpado quando dormia durante a oração ou quando esquecia os pedidos.

Mesmo sem fazer parte de qualquer igreja, não sei exatamente com quantos anos -talvez doze, ou onze - comecei a praticar uma leitura bíblica cotidiana. O que me levou a isso? Não sei ao certo, eu era um garoto meio tristonho, que se isolava frente à televisão, vezes lendo. Todavia, ler a bíblia sozinho me proporcionou adentrar numa grande aventura, um romance com heróis, traidores, guerras, poderes sobrenaturais, fogo que vinha dos céus, o bem e o mal em confronto, gigantes, leões e um cabeludo que, desarmado, incitava uma revolução na alma dos homens.

Muitos nascem na igreja, ou freqüentaram bastante a igreja antes do primeiro contato com a bíblia, para estes, as histórias bíblicas não são inéditas como foram para mim. Em minhas leituras, mesmo já ouvindo falar, eu simplesmente não sabia que Davi venceria Golias com uma pedrada. Davi era meu herói, até o dia em que quase chorei no meu sofá... Foi quando li sobre o assassinato e adultério que o mesmo havia cometido. Eu criava em minha mente o cenário de cada guerra do povo de Israel. Admito que pulava os trechos bíblicos mais chatos, e as reflexões confusas de Paulo, essas eu lia apenas para satisfazer minha consciência. Enfim, foi uma surpresa saber que a história de Sansão era bíblica, imaginava ser apenas um episódio do Chapolim Colorado, no entanto creio que grande parte do que eu lia não conseguia compreender muito bem.

A leitura bíblica contribuiu, mas acho que fiz da bíblia apenas mais um romance secular, ou um sacrifício cotidiano. Posso estar errado, mas só percebi que não estava sozinho em minha caminhada de vida quando passei por sérios problemas de depressão. Desentendimentos com meu padrasto (considero-o como pai), fizeram-me sair de casa e ingressar num colégio de regime internato. Não gostava muito do curso, na verdade só queria mesmo era fugir de casa. De certa forma, apesar dos bons momentos que vivi nesse colégio, minha depressão crescia a cada desapontamento com vida. Escrevia poesias melancólicas e chorei muito quando reprovado em algumas provas de vestibular ( algumas universidades aplicam processos de avaliação diferentes no nordeste), isso contribuiu mais ainda para minha doença da alma. Porém, mesmo ainda meio arisco e longe de igrejas, a dor inevitavelmente apontou o caminho para o consolador, alguém que sorrateiramente invadia minhas poesias e oferecia a elas um final feliz.

Descobri que não estava só. Isso me deu forças para não cometer uma tragédia contra minha vida. Acho que em nenhum instante de minha depressão chorei sozinho, entre abraços invisíveis, conheci esse Amigo e Pai que amo tanto. Não levantei minha mão em nenhum apelo da igreja, não fui até Deus, Ele veio até mim, invadiu, conquistou, ocupou um vácuo da alma, com seu carinho, consolo e amor.

Nos últimos anos de internato eu comecei a visitar algumas reuniões evangélicas que ocorriam no colégio. Contudo inclinei-me mais para um outro viés de identidade cristã. Todos os sábados, eu e meus amigos fugíamos da escola para assistir uma missa de um padre que aprendi a admirar pela sua sabedoria e eloqüência, ele me influenciou muito com suas reflexões (diferentes de qualquer outros sermões já ouvidos por mim). Brinco, ao crer que ele não seguia as orientações do Papa. Falava de um Jesus simples, com palavras que penetravam na alma pela força do Verbo. Desde então, tornei-me viciado em refletir nos ensinamentos de Cristo. Na cama de baixo da minha beliche, refletia sobre a vida e suas mazelas e por vezes isso aumentava minha tristeza... lembro-me dos meses de guerra no Iraque, nunca procurei tanto por respostas como naqueles dias. Por vez encontrava alento, vezes me desesperançava novamente num ciculo vicioso .

Eu estava determinado a conhecer mais sobre esse Jesus que vinha causando tantas mudanças e confusões e surpresas em minha alma. Não sei bem explicar a razão, talvez sobre a influencia desse padre ou em virtude da minha timidez e insucesso com as mulheres, resolvi procurar um seminário católico. Resolvi tornar-me padre, no entanto, depois da primeira visita ao seminário desisti dessa idéia. Deparei- me com algumas instruções discordantes com a bíblia e, um tanto, distantes dos sábios ensinamentos do bom padre.

Quando terminei meu curso, sai do colégio interno e procurei uma igreja batista em minha pequena cidade, depois de um mês de igreja um irmão me perguntou: “Rafael, hoje, dia...você crê que Jesus é seu único salvador?” Pensei: “como assim?Acho que sempre foi!”. Na verdade não entendi bem a pergunta dele, mas não o contrariei. Hoje entendo melhor essa pergunta, e bem sei que a resposta sempre foi uma certeza bem viva em mim, antes mesmo que houvesse a pergunta.

Após três meses nessa igreja ingressei na UFRuralRJ e de repente conheci a ABU (Aliança Bíblica Universitária). Nesses dias compreendi de sobremodo o que Jesus chama de próximo, família, Corpo. Irmãos samaritanos que passando pela universidade encontraram um jovem ferido, longe dos pais e cheios de inquietações no coração. Cuidaram carinhosamente desse jovem e por fim, apenas sussurraram em seus ouvidos:”Vai e faz o mesmo”. Esse foi o meu “ide”. Lembro-me da minha timidez no grupo e do meu primeiro estudo bíblico. O tema era dia do PAI, fiz analogias entre Deus Pai e o dia dos pais. Foi nesse dia também que liguei para o meu padrasto e pedi perdão por todos os nossos desentendimentos. Foi na universidade e com o auxílio da ABU que descobri um amor inexplicável de Deus para comigo, isso me ajudou a superar crises da alma que ainda me afligiam. “O Amor de Deus”, esse era o tema de grande parte dos meus estudos na ABU... até hoje é. Descobri o grande segredo da bíblia e sua chave hermenêutica, Jesus. Na ABU encontrei uma palavra que por muito esteve longe de minhas poesias: amizade.


Minha fé foi cultivada aqui dentro da universidade, deparei-me com grandes descobertas depois do meu primeiro CF (curso de férias da ABU) em Campos-RJ. Descobertas cristãs que contribuíram para o meu amadurecimento, após, já participei de mais alguns CFs, mas o primeiro foi meu ponto de partida, inclusive, minha primeira ceia. Nesses dias percebi que não caminhava apenas eu e Jesus, havia um Corpo espalhado pela face da terra, havia uma missão na qual resolvi aventurar-me.


Quando descobri esse mundo novo, desbravei, mas desencontrei-me diante de inconformidades. Após algumas leituras a vivências, desapontei-me com a igreja. Por algum tempo fui revoltado com a igreja e seus inúmeros equívocos. Hoje um pouco mais maduro, não deixo de criticar, mas também já não deixo de me envolver. Atualmente dou aula em algumas classes do ministério de ensino em minha igreja local. Quero servir de alguma forma, há desapontamentos que continuam , porém eles estimulam-me a tentar não repetir erros, ou caminhar para melhorar o que ainda está errado. Entendi que a igreja é imperfeita, apenos por ser um reflexo meu no espelho.

Ainda não sou um Super homem, há dias que ainda sinto depressão, as dúvidas ainda existem, todavia, sem abrir mão da certeza, posso afirmar: Fui surpreendido pela alegria. Hoje espero aprender a servir, encontrar novamente comigo mesmo, olhar no espelho, analisar o passado, viver o presente e correr esperançosamente para o futuro. Quero conhecer mais a Cristo até que ele faça parte inteiramente de mim, quero entender e me entregar a esse inexplicável amor e ofertá-lo sem reservas. Essa minha estranha e resumida história, fala apenas de um garoto surpreso diante de tanto amor. Uma espera de olhos fitos no horizonte. Uma alegria que ainda respira depois de um profundo mergulho na tristeza. Essa é uma simplória carta destinada a amigos. Desejo a Graça e Paz de Cristo e abraços meus ... do sempre amigo... Castro Lins

terça-feira, 7 de julho de 2009

O Livro












A bíblia é um romance, onde o próprio Deus narra sua história de amor. Romance sem final. Certamente por essa razão, o último capítulo do livro – apocalipse - tem como tema principal não o fim, mas a eternidade. Primeira história de amor, pioneira, onde tudo que se julga amor de outrora, de agora, ou do por vir... é apenas uma sombra, uma réplica imperfeita, um mero prefácio desse livro onde o amor é levado à existência por quem amou até o fim.
Uma história de amor de um Deus e seu povo. A noiva apaixonada, que espera em suspiros pela volta do seu Noivo. História de um povo, cujos fracassos são bem expostos em suas lamentações, e seus cânticos são bem ouvidos em seus salmos. Heróis que não sabem voar, mas possuem o céu como herança. Na terra sujam os pés, e carregam consigo apenas uma boa e nova mensagem para os ouvidos da alma... “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”. Alguns profetas, ou simples poetas. Outros são carteiros de todos os endereços, todos os destinatários. Uma carta de amor que Deus escreveu a punho, perfumada e selada com uma cruz.
Depois de uma virgula no meio do parágrafo, o autor decide entrar na história do seu livro. O técnico entra no jogo. Um escritor se faz escritura e personagem principal. Esse capítulo muda o curso da história, o mocinho morre... Como nos livros infantis, havia a gravura de uma cruz. Na próxima página uma batalha é narrada e por fim a morte – vilã do livro - é vencida.
Nos capítulos adiante, o filho pródigo volta ao Pai. A noiva finalmente é entregue aos braços do Noivo. O Rei estabelece perpetuamente seu reino, ou apenas... Uma carta de amor, ou apenas uma cruz que mais parece um soneto carinhoso. Na verdade, apenas uma história de amor. História sem final, e viveram felizes para sempre... Castro Lins


obs: Bem sei que a Bíblia é formada por vários livros juntos, todavia, bem sei e sei com veemência, que o Autor é um só.