quarta-feira, 14 de março de 2012

UM DIA ESPECIAL




Um Dia Especial


Fui amigo de um rapaz chamado Levi. Ora, para evitar suspeita, ou dúvidas sobre a veracidade das minhas palavras, devo acrescer que ele foi apenas um conhecido, ou ainda, talvez, somente uma história, seja como julgar melhor o leitor. Sei que não deveria eu ousar tanto quando falo a respeito de uma dor que, em seus mais aspectos, simplesmente desconheço. Todavia a narrativa é curta demais para que ofenda quem a ler, essa relis historinha não passa a ser mais do que é, a saber: insignificante! Porém, no fim, alguém a de convir comigo, a despeito de todo o meu amadorismo, e encontrar por entre seus melhores conselhos essas palavras inacabadas.

Levi foi um rapaz que descobriu um invasor mortal em seu corpo, este o invadiu em idade inoportuna, pois meu amigo ainda era um jovem moço quando soube que fora acometido – não sei se essa última é a melhor palavra a se usar – por um câncer que lhe deixou apenas com alguns
outros poucos dias de vida. Claro que deves, amigo leitor, estás a pensar que nenhuma novidade há nessa historinha proposta, afinal, muitas são as pessoas que sofrem com câncer ou outras doenças terríveis, e todos já sabem como se sucedem e até como terminam tais histórias. Ora, meu leitor, não estou eu ciente de tais perigos literários? Ainda mais, posso dar- te garantias que o último dia de vida desse rapaz é digno de relato meu – escritor de um blog quase nunca acessado - em uma página ou duas no máximo, dependendo da minha pobre criatividade. No entanto, voltemos ao Levi em seu derradeiro dia de vida:

Aproximavam-se às nove da manhã
quando acordou em uma cama de hospital público, estava vigiado apenas por uma enfermeira obesa de meia idade que parecia não saber como sorrir. Às nove horas e quarenta e cinco minutos sua mãe apareceu por entre as portas. Ela ficara sabendo, há poucos dias, que o filho, pobrezinho, estava nas últimas e quando soube fez o que nunca havia intentado nem em seus surtos de coragem: desafiou o marido e sua usura, fez-lo pagar as despesas com a longa viagem e ainda exigiu dele muito dinheiro, baseada na crença inocente que o filho ainda poderia ser curado se, despeço daquele fétido lugar público, transferido para um bom hospital de usura tal a do seu marido.
Ah caro leitor, pensas que o que narrei até agora não te impressionas em nada, não é verdade?
Mas é porque tu não conhecias essa mulher pacata que mais parecia uma serva passiva do seu marido, porém por um dia, não mais do que isso, o que para minha história é bastante, essa mulher enfrentou o senhor que por uma vida a oprimiu e viajou dias para encontrar o filho e, por uma única vez, recolhe-lo em seu colo magro. Seu corpo quase sem força estava infantil no colo servil da sua mãe, foi o que Levi desejara por a vida que já estava a se findar.

Às onze horas, a surpresa de Levi não poderia ser comparada a nada que um dia surpreendeu esse escritorzinho de blog, por isso, paciente leitor, sinto dificuldade em descrever esse momento, mas tentemos: Levi não conheceu seu pai - até aquele instante - este deixou sua mãe após rejeitá-lo ainda bebê. Ser rejeitado antes de nascer é como ser julgado antes mesmo de cometer o seu crime, mas prometi não me alongar e não vou estender mais essa história com as tantas metáforas que agora me vêem a cabeça. Sei que tu, leitor, és empático o suficiente para recriar para ti o sentimento sem precedentes de nunca ter conhecido o seu pai, mas naquele dia último tudo se desfez como se a morte fosse capaz de apagar os ressentimentos e culpas, e foi aproximadamente isso o que aconteceu: Levi experimentou a sensação, que não consigo contar em detalhes, de abraçar pela primeira vez o seu pai que, mesmo que após anos, naquele dia foi ao seu encontro.

Quero pedir perdão se dei a entender que, antes desse dia miraculoso, Levi se encontrava sozinho nesse mundo, sinto muito se não fui claro. Para me reparar, devo lembrar-me de alguém. Uma doce e meiga garota que estava, como sempre esteve, ao seu lado: antes e durante a internação. No dia da sua morte foi a primeira a sentir sua pele fria sobre as mãos. Sim! Essa por certo essa é a melhor resposta aos seus pensamentos, meu querido leitor, por isso deixa-me repeti-la com mais clareza: Sim, com certeza ela o amava de modo sincero, claro, por isso ele não deveria queixar- se com Deus alegando que nunca fora amado... seria o mesmo que mentir após a morte, se isso for possível.

Oh não! Esqueço-me de uma parte importante dessa história. Estou certo que alguém me repreenderia por contar um sonho feito de talvez, mas seria desonesto com os sonhos não contá-los unicamente por não serem reais ao meu juízo, não concordas? Deixe-me parecer ao menos honesto: Naquele
leito, naquele dia, na penumbra entre o a luz e as trevas da noite, outra personagem chegou para compor o dia. O sol raiara logo em seguida a entrada furtiva dessa moça no hospital, só sei dizer que ela tinha olhos tristes que o observavam de longe. Aproximou-se com uma lentidão crível e enquanto dormia o
meu prezado amigo, ela o beijou, tornou a beijar a única boca que a beijou até aquele - inefável - momento e depois, às cinco da manhã, depois de muito olhá-lo, se foi. Levi empobreceu minha história quando decidiu velar para si o nome desse sonho. Pareceu-me acreditar que não seria necessário, outra vez mais, acordar de seus belos sonhos, isso o fez feliz.

À tarde, já próxima do seu fim, trouxe antes de ir os seus irmãos, estes ficaram por tempo suficiente para recordar as inúmeras travessuras e brigas tolas, a mágica daquele dia transformou tudo em motivo de riso. Algumas tias queridas chegaram lá pelas cinco da tarde com alguns quitutes culinários, Levi provou tudo as escondidas e levou para o céu sabor adorável da comida das suas tias. Amigos tão virtuais que um dia se foram no tempo, também quase não cabiam naquele quarto dividido com outros dois doentes. Levi confessou que se o céu o deixar escolher sua própria alegria, ele iria reviver por lá os bons e divertidos dias, ainda que raros, ao lado dos amigos. As palavras realmente ditas, ou aqui inventadas por mim, se fizeram na hora sexta desse dia.

Às sete horas da noite pediam licença pela janela. Irmãos de sua pequenina igreja recitavam suas orações, talvez pela primeira vez ele as ouviu atento com olhar fito nos lábios que se moviam em petições. Ele riu para si e decidiu por fim ensaiar sua última oração e, por conveniência, fechou os olhos. Antes de findar à hora sétima, de um modo incompreendido a dor deixou seu corpo, devo, no entanto, pedir que não prossiga em sua credulidade, meu amado leitor, ao ponto de cogitar um milagre, pois não foi bem o que ocorrera naquele instante. Entretanto, para além do milagre Deus foi o seu último, e mais esperado, encontro de um dia especial.
Deus veio vê-lo antes do fim, ou do início se melhor calhar. Entre murmúrios de orações percebeu presenças, por fim sentiu morrer a solidão e, não por mais do que doces minutos que antecediam a morte, a vida se fez preenchida de significado. As tantas dúvidas o deixaram morrer em paz, o choro estava a tomar a todos, menos os olhos já fechados do meu querido amigo.
O que tenho a diferir nessa história, meu já intimo leitor? Nada em especial, a não ser por um dia somente. Pois por um dia, sinto só poder garantir um dia, meu amigo não esteve sozinho.
Estou a pensar, por agora, se foi o câncer ou em suma a morte responsável por proeza tal... não tenho respostas, mas se foi que seja! Se a vida se fez refém da presença da morte, o que fazer? Importa saber, porém, que antes que Deus se inclina- se para levá-lo consigo após a acre solidão dessa vida, o dia último de Levi, meu amigo, foi especial.
Se suas expectativas foram, meu leitor, de modo superiores ao que te ofereci, peço desculpas novamente. Isso foi tudo que Levi me deixou: um dia
especial.
Castro Lins

"(...) Porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;” O Coélet

quinta-feira, 1 de março de 2012

UM ESTUDO EM ROMANOS _ Primeira Parte



"Esse texto é uma adaptação escrita, inspirado na mensagem original
ministrada na Primeira Igreja Batista em Seropédica."


ESTUDO EM ROMANOS- Primeira Parte

Sem encontrar muito que dizer por agora, começo pela minha simpatia por alguns
livros da bíblia. Um deles, por certo, é a epístola aos romanos. E digo de
passagem que esse é um livro realmente fascinante e que desperta em mim, desde
muito tempo, curiosidade. A carta aos romanos é considerada pela maioria dos
estudiosos, um tratado, o texto mais bem elaborado, e talvez o principal, desse
personagem intrigante chamado apóstolo Paulo.

Ao
diferenciar-se bastante das demais epístolas do apóstolo, essa carta pede sobre
si um olhar especial. Nas cartas aos gálatas ou aos coríntios, por exemplo,
Paulo responde a necessidades especificas vivenciadas por essas comunidades, em
outras palavras, Paulo ensina, combate
opositores, repreende condutas, fortalece, consola... todavia o faz sempre
segundo as demandas de cada grupo, digamos, de cada igreja .
No entanto, isso
não se aplica a carta aos romanos, pois, conforme o seu primeiro capítulo,
Paulo deixa claro o seu sincero desejo de visitar aqueles irmãos em Roma, mas
isso até aquele momento ainda não havia acontecido. Enfim, Paulo escreve a uma
igreja que ele ainda não conhecera pessoalmente, de modo que esse valioso
escrito pode, mais do que qualquer outro desse autor, ser usado em maior
amplitude, ou seja, seus ensinos são fundamentais para igreja em qualquer lugar
que esta se encontre, ou sendo mais ousado ainda, em qualquer tempo que esta se
encontre. São palavras que, não totalmente, mas em parte, ultrapassam os
limites contextuais, temporais, de uma comunidade cristã.

A
carta aos romanos foi uma oportunidade perfeita para o apóstolo tratar, de modo
profundo, o que é central e distinto para sua doutrina, a saber: A justificação
pela fé em Jesus Cristo. Esse texto é de uma força tal que Paulo parece progredir
em sua elaboração sobre assuntos que são o fundamento da fé Cristã. Ele fala de
modo soberano sobre o poder da graça, a maldição do pecado, a justificação pela
fé, a ação transformadora do Espírito Santo. Paulo, como um experiente maestro,
vai progredindo mais e mais até chegar a um ponto da carta em que simplesmente
se encontra sem palavras... sem ter o que dizer. E é exatamente esse trechinho
da carta em que de repente o apóstolo emudece, perde as palavras, que
oportunamente pretendo tecer algumas simples palavras minhas.

Verso 30: “Que
diremos, pois, à vista destas coisas?” Em outra tradução talvez essa
expressão pareça mais clara: “Depois
disso, o que dizer?”

Começamos esse ligeiro estudo, exatamente no
momento em que nosso personagem principal, Paulo, afirma não ter o que dizer
diante, ou depois do que já foi dito. Propositalmente usei a palavra “afirmar”
enquanto me referia a uma pergunta, e ai está a grande ironia presente nas
perguntas retóricas, estas são perguntas que na verdade não indicam dúvida, ou,
pelo contrário, expressam uma certeza evidente. Esse pequeno trecho do capítulo
8 contém muitas dessas perguntas especiais que mais afirmam do que questionam.
De forma que o texto trata sobre certezas vitais escondidas sob a aparência de
perguntas. O texto segue, como se subindo, por sobre perguntas retóricas:

Ainda no verso 30: “Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será
contra nós?"
Quando garoto, vivia a tranquilidade da minha
infância até o dia em que a geladeira da minha mãe recebeu seu mais novo
enfeite, um adesivo barato que foi colado na sua porta. Nele, estava escrito:
Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Estava eu diante do meu primeiro
mistério. Desde onde consigo me lembrar, essa pergunta sempre me incomodou. Imaginei
todas as possíveis respostas para ela e só acalmei minha alma quando, aos doze
anos, cheguei a conclusão que Deus era por mim, enquanto a minha malvada
professora de matemática certamente seria contra mim. Alguns anos se passaram,
quando já adolescente fui ao cabeleireiro, de repente, olhei no recanto do
espelho e ela estava lá, havia voltado para me atormentar. Carreguei comigo
essa pergunta por muito tempo, até pensei que finalmente havia respondido- a
quando supus que o diabo seria contra nós. Eu não entendia... Não sabia que
essa era uma pergunta daquelas cuja resposta está ao mesmo tempo implícita, e
ao mesmo tempo clara como o dia.
Hoje eu entendo... que somente não há quem seja contra nós quando Deus é por nós. Isso
não significa ignorar os possíveis adversários prontos para nos fazer mal, ao
invés, seu significado equipara-se ao verso 28 desse mesmo capítulo:
“E sabemos que todas as coisas cooperam juntamente, para o bem
daqueles que amam a Deus...” Sabendo que são todas as coisas, eu acrescentaria
ao versículo: Todas as coisas, inclusive o mal, inclusive os adversários, cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus...
Perguntas retóricas existem para nós deixar
indefesos, acontecem quando nossa melhor resposta é o silêncio:

Verso 32:
“Aquele que nem mesmo seu próprio Filho poupou, antes o entregou por
todos nós, como nos não dará também, com ele, todas as coisas?”

Esse verso acima nos remete a conhecida história de
Abraão e seu filho Isaque e, mais
especificamente, ao relato que descreve o momento em que Deus pede a Abraão o sacrifício do seu próprio filho,
este prontamente se mostra disposto a obedecer o seu Deus e sacrificar o filho,
mas Deus o impede posteriormente. Essa história enfim deixa entender que se
Abraão era capaz de sacrificar o seu amado filho em favor a Deus, por certo
também era capaz de tudo fazer por amor a esse mesmo Deus. Aquele que oferece
um filho, não negaria nada mais. No entanto, quando Paulo aqui se refere a Deus
e seu filho Jesus crucificado a lógica é inversa, tudo é posto de cabeça para
baixo: Pois já não é o homem quem sacrifica seu filho a Deus, o fascínio é:
Deus que sacrifica seu filho pelo homem, e se ele, Deus, é capaz de sacrificar
o seu amado filho em favor do homem, por certo também é capaz de tudo fazer por
amor a esse mesmo homem.

Perguntas retóricas nos expõem a certezas ímpares e,
por vezes, nos encontramos simplesmente sem ter o que dizer. Talvez seja esse o
intuito do autor: roubar nosso fôlego nos expondo a verdades sem par;
(Continua)
Castro Lins

UM ESTUDO EM ROMANOS - Segunda Parte






"Esse texto é uma adaptação escrita, inspirado na mensagem original
ministrada na Primeira Igreja Batista em Seropédica."


ESTUDO EM ROMANOS - Segunda Parte

Verso 33- 34: “Quem intentará
acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.

Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu, ou, antes, quem ressuscitou de entre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós.”

As verdades desses versos parecem óbvias para qualquer cristão, todavia, nossa mente, sempre amedrontada pela culpa, recruta erros e acusadores a todo instante, esquecendo quem nos advoga e justifica. Taís palavras são repetidas ao longo de toda obra escrita do apóstolo de modo a torná-las centrais para sua doutrina,
porém, mesmo dessa forma esses versos, ainda, podem se apresentar como perguntas comuns, sem a retórica das perguntas anteriores, sem certezas imprescindíveis, pois, no final, nos resta sempre a escolha indelegável:
interpretar para a vida tais palavras como certezas consideráveis, ou,
simplesmente, ignorar a retórica com a incerteza recorrente a qualquer outrapergunta comum.

O texto
continua a subir, como se progredindo a um clímax. Acredito que todas essas perguntas antecedem, pronunciam e anunciam uma outra de importância última. A essa pergunta Paulo dedica mais atenção, pois, antes mesmo de respondê-la, põe- se a listar possíveis respostas erradas:

Verso 33:
"Quem nos separará do amor
de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a
nudez, ou o perigo, ou a espada?”

Paulo
provavelmente se refere às ferozes perseguições sofridas pelos cristãos de seu
tempo e, não muito menos, também a todo sofrimento que nos assola hoje. Será,
afinal, o sofrimento poderoso o bastante para nos separar do amor de Cristo?
Não é ainda nesse versículo que ele responde;

Verso 34- 35:
“Como está escrito:
Por amor de ti, somos entregues à morte todo o dia; fomos reputados como
ovelhas para o matadouro.
Mas, em todas estas coisas, somos mais
do que vencedores, por aquele que nos amou.”

O teor
dessas palavras perece mesmo fatalista, apresenta a morte por sua presença todo
o dia, como a estar sempre a nos cercar. Ao mesmo tempo o texto compara
cristãos a frágeis ovelhas a caminho do abatedouro, rumando sempre em direção a
morte. Não é nada difícil compor um tom triste a essas palavras. Se existe algo
temível nessa vida, certamente, é a morte com todo seu furor; Será ela poderosa
o bastante para nos separar do amor de Cristo?

O que mais
impressiona nesse texto é o efeito de ligação da expressão: “ Em todas essas coisas”. Pois ela faz um paralelo surpreendente entre o sofrimento e a vitória, como se ambos
caminhassem lado a lado, no entanto, nossa tendência natural é separá-los, como
se isso de alguma maneira fosse possível, e não é. O sofrimento é imanente a
vida e só quem ignora a dor do seu semelhante pode negar o sofrimento. As
igrejas inocentemente deturpam o significado desse texto quando afirmam que “somos mais que vencedores” sem antes
dizer: “em todas essas coisas”. É
justamente imersos na tristeza inamovível desse mundo, é cercados pela morte a
nos sondar todo dia, é presos a um contexto de sofrimento e dor... é em todas essas coisas, e outras mais, que somos vencedores, ou ainda, mais que vencedores por meio daquele que nos amou,
a saber: Jesus o Cristo.

Para ilustrar: Conheço a história de uma mãe
que por um longo tempo passou por muitas privações para custear os estudos de
uma filha. Ela trabalhou bastante, por vezes foi humilhada, porém, enfim chegou
o dia da formatura dessa filha, e esta fez para a mãe um lindo momento de
gratidão e homenagem... A mãe se emocionou bastante e disse:

“Se eu pudesse imaginar que viveria tamanha
felicidade e se eu pudesse imaginar... se soubesse que seria esse momento tão
especial... Passaria por todo o sofrimento que passei de uma forma diferente,
de uma forma mais firme e esperançosa, eu passaria pela dor como uma
vencedora...”

Eu devo
acrescentar a história quando digo que se nós cristãos pudéssemos imaginar... Se
nossa pobre mente pudesse conceber por um instante o que nos espera em Deus...
Passaríamos pelo sofrimento dessa vida como vencedores, com muito mais vigor e
esperança.

A esperança
que nos move por entre os pesares dessa vida é essa, como disse Karl Barth: “Do
mesmo modo que somos co- participantes das dores de Cristo, também somos co-
participantes da sua glória.”

Ou melhor
expresso pelo próprio apóstolo nos versos 17 e 18:
E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros, também,
herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos,
para que também com ele sejamos glorificados.
Porque, para mim,
tenho por certo que as aflições deste tempo presente, não são para comparar com
a glória que em nós há de ser revelada”.

Não!
O sofrimento não pode nos separar do amor de Cristo! Mas sou eu quem esta dizendo antecipadamente,
pois Paulo parece escrever um poema antes de responder a essa pergunta:

Verso 38- 39:
“Porque estou certo de que, nem a morte,
nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o
presente, nem o porvir,
Nem a altura, nem a profundidade, nem
alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo
Jesus, nosso Senhor.”

Chama
atenção como esse verso é iniciado com uma certeza manifesta. Antes Paulo
referia-se as dores desse mundo, agora, porém, se volta a forças de outro
mundo, a poderes ocultos, anjos, ou a avassaladora força do tempo que devasta a
tudo e a todos, mas de modo que nem estes, nem mesmo a vida com tudo que nela
há, ou a morte que varre todos os seres viventes, nem os céus ou a terra, nada
que um dia foi criado é forte a tal modo capaz de nos separar do amor de Deus,
que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

A certeza do amor de Deus, talvez
a única certeza que o homem precisa para viver. E diria ainda que a nossa
existência será de uma forma muita mais dolorida se nos faltar essa certeza.
Uma amiga, psicóloga, certa vez disse que, infelizmente, grande parcela dos
problemas relacionais, das violências domésticas e de tantos casos de abusos de
todos os tipos são recorrentes a pessoas crentes que nunca foram amadas por
ninguém, diz ela. Os piores males da nossa sociedade são reflexos da incerteza
desse amor. Lembro- me da única vez que vi meu pai chorar... Percebi por traz
da sua rigidez e intolerância uma criança alegando que ninguém a amava, nunca
esqueci esse dia em que enxerguei a real fragilidade daquele homem que não
sabia se relacionar com seus filhos.

A vida é um
bem perecível, ela passa com rapidez e não volta, logo, a maneira como passamos
por ela requer toda atenção. Podemos seguir por através dessa vida como órfãos abandonados em dias maus, imersos em um mundo onde o sofrimento não pode ser negado, ou, porém, podemos caminhar por entre a vida e suas dores como pessoas amadas,
naturalmente, incertos sobre muitas coisas, inconstantes, todavia tomados pela
constatação de que o amor de Deus não nos larga. De fato, nos dias de angústia,
fome e nudez, igualmente nos dias de dúvida, ou naqueles dias em que se deseja
nunca ter nascido, por certo será a certeza desse amor que irá nos suster, irá
guardar nossa esperança e, se, de algum modo vale a experiência deste que lhes
escreve, essa certeza foi e continua sendo a que resta a ele e, por fim, o mantém
vivo!

Castro Lins


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fim do Mundo



Fim do Mundo

Uma cidadela do sudeste brasileiro foi tomada por horrível pestilência. Uma
enfermidade carregada pelo vento e cujo contágio feroz matou famílias inteiras em poucos dias. Prefiro aqui não descrever sintomas, pois estes, de modo eram tão repulsivos e mortais, que seria, da minha parte, um desrespeito a
humanidade de tais pessoas. Para além das dores descomunais o medo levou muitos
a tentativa de se isolarem em suas casas, pois, qualquer mero contato poderia
ser o último. As casas tornaram- se ilhas, refúgios ou, sobretudo, consideraria
cárceres. O terror confundiu mães quando estas cerraram suas portas para os
filhos contaminados e por fim, a cada casa por onde restou alguém, pequenos
mundos nasciam a parte da insuportável realidade lá fora. Entre esses estava
uma pequena igreja com seus portões fechados, abrigava alguns poucos membros
seus e mais os lideres daquele rebanho remanescente:

“Meu
amigo, Jean, Pastor desse rebanho comigo, diz, ainda sereno, que esse é o fim
do mundo, devo acreditar? É irônico, não? Esses talvez sejam meus últimos
momentos de vida e ainda não sei ao certo em que devo acreditar. As dúvidas
continuam em centenas, mas todas estão recolhidas hoje, pois uma certeza me
move a escrever- te... Deus! Apen
as eu e tu sabemos o quanto esperei por esse
dia. Procurei evidências tuas em cada dia e em toda parte, esperei ouvir tua
voz e nada! Cumpri todas as regras e rituais, professei como verdade cada palavra
de fé, ajoelhei- me, e estava sozinho, onde tu estavas? Segui todos os passos
que os homens um dia disseram que me levariam indesviavelmente a ti, mas não te
vi mesmo de longe, talvez tenha me perdido. Fui a cada cidade santa a tua
procura e conclui que não te encontravas em templo algum, por quê? Nada passou
de êxtases momentâneos, ou de uma relis obediência a moral humana. Nunca fomos
assim tão próximos, não é verdade? Apesar dos meus sermões que dizem ao
contrário. Hoje, porém, minha busca encontrou o seu cessar e somente agora te
vejo mais claro. A noite se foi e estou na penumbra que anuncia o dia, pois aos
poucos te desvelas para mim, meu Deus. Te postas diante de mim e eu sem demora
vou ao teu encontro...
Nunca
antes havia imaginado a morte dessa maneira, pois caminho a ela com toda a vida
que tenho, de uma forma que a tua cruz se preenche de motivo, de razão de ser.
Aliás, antes, era a mim inconcebível encontrar essa razão, ou a função que te
levou a morrer como homem sendo tu Deus. Como imaginar o Deus indescritível na
menor e desprezível imagem humana? a saber: Deus na pessoa de um servo, ou
ainda de um escravo. Invertes com tua cruz todos os valores, afastas as
virtudes e as bem aventuranças de toda forma tirana de poder, também do ouro,
ou da sabedoria e encaminha a felicidade para o servo, surpreendentemente, para
o pobre e para os teus pequeninos, sei que somente Deus ousaria tanto.

fora, de onde ecoa a tua voz, há pessoas que perecem, sofrem, sabes bem que a
realidade não é nada boa. Eu te pedi uma simples cura, e tu me respondes para
além e concedes a mim um milagre, afinal, o teu maior milagre sempre foi
resignificar a vida, girá-la para tua direção. Perdão por tanta demora, foi
difícil perceber, mas logo te vejo perto. Deus, sei que estás a minha espera
logo após esses portões, feliz como uma criança, vou ao teu encontro.”

Escritas
tais palavras ele se foi por entre os portões da igreja, logo a sua frente
encontrou a fragilidade das pessoas a sua espera. Foi ao encontro dos doentes,
dos aflitos a espera interminável por quem os consolasse. Carregava em manuseio
apenas a fé, seu dom, e partilhou- a para alívio dos cansados. Ávido por Deus,
o encontrou vívido e claro como sol enquanto servia aos necessitados. Ele,
Deus, sempre esteve lá aguardando um encontro, a sua espera após os portões da
igreja onde pessoas reais pediam ajuda. Dizia antes de morrer que o Deus servo
e crucificado é incompreensível enquanto estivermos longe do outro, isolados em
nosso mundo, em nossas ilhas, em nossas casas, pois em suma, Deus está sempre
um passo em direção ao outro.
A
carta a Deus foi encontrada sobre sua antiga cama, todos os membros da eclésia esperavam
o seu retorno. Os dias passaram e se foram, e aquele homem, simplesmente, não
voltou. Por certo morreu como qualquer outro doente tomado pela peste.
Entretanto alguém, por ventura, leu sua carta e a notícia se espalhou quando
aquela igreja, de vez, abriu os seus portões para ir a fora servir. Ora, como a
um contágio, o vento soprou e outras igrejas o mesmo fizeram.
Quando
a peste se foi, levou consigo esses cristãos que um dia foram chamados para
fora, muitos, ou quase todos, morreram. Porém, antes da morte, em liberdade o
Deus servo foi-lhes ao encontro e, ainda naqueles dias de tormenta, a tardar,
uma profecia se cumpriu: foi o fim de muitos mundos.
Castro Lins

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poema Identidade




Poema Identidade

Dos sonhos não me recordo,
E se quando ao dormir eu esteja
Dormindo quando acordo?
Se certeza por certo seja
Essa porque concordo?

Tais ilusões são paredes
E vela todo vazio aparente:
Nessa sociedade que crede
Em toda verdade que invente.

Quem a construiu que recolha
Os restos e esses sinônimos
Que me propõem em escolha
Esses autores anônimos.

Esses sonhos não são meus!
A sociedade é quem sonha
E sopra nessas narinas,
Pois essa minha alma tristonha
Não há de ser obra divina!

Do céu vejo minha janela...
Será Deus que se revela?
Ou será outro sonho dela?

Tão Grande sociedade! Como
Cabe em minha identidade?

Castro Lins

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

TEOLOGIA EM PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA



Teologia em perspectiva sociológica: uma breve passagem pelo Jesus dos evangelhos e a Igreja contemporânea

Por Rafael de Castro Lins




Em uma atenta leitura dos evangelhos e do cotidiano eclesiástico é possível identificar alguns fenômenos sociais estudados pela sociologia. Primeiramente no que diz respeito ao surgimento de Jesus em uma sociedade judaica cuja fidelidade a trama de significados definidos e aceitos em consenso deteriorava-se, os sistemas sociais encontravam-se num processo de não- reconhecimento por certo em virtude do agressivo domínio romano, a partir de então a sociedade começa a fabricar novas expectativas, a fomentar um messias e um novo reino. Esse foi um solo fértil para o nascedouro de Jesus que se apresentava como uma resposta a expectativas sociais e sua conduta proporciona-lhe a identidade almejada do messias, antes tínhamos Jesus de Nazaré, depois do ministério apresenta-se Jesus o Cristo. Acredito que pelo modo como o Jesus dos evangelhos se coloca acima da tradição e da legalidade, pela maneira que apresenta uma nova trama de significados que redefinem Deus e a existência humana e que são aceitos, pois é significativo o número de seus seguidores no decorrer dos tempos, em virtude desses fatores Jesus também pode ser descrito em termos do carisma weberiano.


Ainda que no seu momento inicial o cristianismo mais pareça um processo de alheamento grupal, construindo um submundo com uma cosmovisão própria, todavia logo expandiu e se tornou o novo pressuposto da sociedade. A mudança de significados nos evangelhos é tão clara que enquanto inserido nos moldes tradicionais da sociedade precedente Jesus morre como um criminoso, pois afinal foi crucificado, e após uma mudança, uma redefinição das verdades sociais, Jesus então é apresentado como o Salvador, o Cristo. A sociedade muda e com ela mudam também os nossos heróis.


Por outro lado, como é bem colocado por Peter Berger: “A extraordinária paixão de um movimento carismático raramente vive por mais de uma geração. (...) o carisma reintegra-se as estruturas das sociedades em formas muito menos radicais.” Acredito que talvez a extraordinária paixão do cristianismo tenha sobrevivido mais de uma geração, porém é inegável que este integrou-se as estruturas das sociedades e hoje grande parte sua é apresentada como a instituição chamada igreja que, assim como outros órgãos dessa natureza, padroniza a conduta humana, utiliza sistemas de controle e apresenta seus caminhos desejáveis como única opção plausível. Em termos doutrinários a igreja também é definida em parte por pessoas que já morreram, mas que suas palavras ainda continuam vivas entre nós, em outras palavras mais diretas, a igreja também possui um dispositivo que gera identidade e dispõe aos seus membros um sistema de significados a ser adotado que propiciará uma cosmovisão, uma explicação para sua própria existência e para o mundo ao seu redor. A alternação sofrida pelo indivíduo envolve um rito de passagem que chamamos de batismo, este abre as portas para uma nova identidade gerada e para o ingresso no ambiente eclesiástico. É possível observar que a igreja também possui mecanismos de reconhecimento que sustentam essa nova identidade e a preservam do não- reconhecimento externo, além disso, o grupo de referência eclesial sem dúvidas é decisivo nas opiniões e ações desse indivíduo.


Na verdade não pretendo construir uma mera crítica, apenas estou tentando observar a sociologia na igreja e nos evangelhos, essas palavras são apenas mais uma perspectiva. Particularmente acredito na necessidade das instituições e vejo o nome cristão como um termo que supera o simples papel social, na verdade creio que a fé vaza os papéis sociais e necessita fazer parte de todos estes que formam nossa identidade, para que não haja incoerências em nossas vidas. Nesse sentido a sociologia pode ser importante para o exercício do pastorado, também contribui para abrir nossos olhos sociais para todas as funções manifestas ou latentes que a igreja tem gerado e assim avaliar cada tradição e ideologia e, se preciso for, redefini-las, como fez Jesus. Para que nossa identidade seja conforme a identidade do nosso Deus revelado em Jesus.



Castro Lins

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

TEOLOGIA EM FOCO - A Biblía: Uma Biografia

A Bíblia: Uma Biografia

Karen Armstrong
Capítulos 1 e 2

Resenha
Por Rafael de Castro Lins

A premissa que norteia as informações desses capítulos nasce a partir da destruição do templo judaico no ano 70 d.c, pois esse foi um fato desencadeante de diversas escrituras judaicas e cristãs, inclusive da maior parte do Novo Testamento. A religião judaica sofreu ramificações, transformações que após a queda do templo intensificaram-se. Uma dessas reverberações foi o cristianismo que nasce como uma alternativa de interpretação do judaísmo, e vale ressaltar, ainda muito ligado a este. O movimento cristão nasce da necessidade de uma nova leitura das escrituras sagradas judaicas, uma hermenêutica que se aproximasse mais com uma realidade de conflito com Império Romano. Jesus surge e logo é abraçado por um contexto que carecia urgentemente de algo, ou alguém, que substituísse o que outrora foi o centro da religião judaica, a saber: o templo. A religiosidade dos judeus foi alimentada como efeito direto do conflito com Roma, portanto, a concepção de um messias fortificou-se, a expectativa do Reino de Deus foi fomentada, e o produto desse imaginário religioso ardente foi literário, tanto da parte dos cristãos como da parte dos rabinos judeus.


O cristianismo foi uma hermenêutica que se destacou entre tantas outras seitas oriundas do judaísmo, como a própria autora ressalta: “O cristianismo é uma proeza exegética onde toda a história de Israel foi redefinida”. A crença fundada numa tradição é reinventada quando enfim reduz a Torá, o templo e os profetas a uma sombra do Cristo. Enxergar o Cristo nas escrituras sagradas dos judeus foi um método exegético que perdura até os dias atuais e de certo modo fundamenta o cristianismo. Essa revisão da Torá funcionou como meio de legitimação de uma nova forma de enxergar e interpretar Deus, para cristãos e para os rabinos pós queda do templo.


Esse florescimento plural de interpretações nascentes do judaísmo foi tanto, que mesmo não se pode falar de uma única visão cristianizada, na verdade, a vertente cristã se ramificou em diversas compreensões a respeito do Cristo, por exemplo, as igrejas da Ásia Menor estavam desenvolvendo um evangelho de cunho mais apocalíptico distinto, em alguns pontos, da interpretação das outras comunidades. A pluralidade de opiniões que inventaram muitos cristos tem uma fonte comum, mas contextos diferentes. Enfim, cada Jesus era desenhado segundo as demandas que eram distintas em cada comunidade. De certa forma isso ocorre até os dias de hoje, de modo mais intensificado, a partir da reforma protestante quando as escrituras sem restrições novamente estiveram abertas para as mais possíveis interpretações.


Esse livro também esclarece que esse fenômeno de reinterpretação das escrituras sagradas não foi restrito apenas aos movimentos cristãos, os rabinos judeus também estabeleceram sua nova compreensão dos escritos sagrados, e esse novo modo de entender a fé e a tradição também foi aceito por muitos judeus, a Midrash é o principal exemplo dessa nova visão nascida no farisaísmo. Assim estabeleceram-se dois ramos Judaicos conflitando entre si pela verdadeira hermenêutica do AT. Nos meados dos anos 80 e 90 os fariseus tornaram-se oponentes a medida dos cristãos, fato que possivelmente explica a maneira negativa sempre atribuída aos fariseus nos evangelhos. Os dois movimentos se coincidem em alguns pontos de suas interpretações, de modo que tanto judeus como cristãos experimentavam a Shekhinah de Deus tendo como principio maior a compaixão para com seu semelhante. Pode-se supor também que a regra da compaixão seria uma forma de evitar novos conflitos com Roma, evitando assim mais tragédias. Então se tem um paralelo entre rabinos e comunidades cristãs, ambos os seguimentos em uma intensa construção literária e conseqüentemente conflitando entre si. Todavia, é interessante lembrar que esses eram novos escritos, novos testamentos que respondiam as necessidades de um povo violado pelo caos da guerra. Por outro lado, para corresponder como consolo a aquela realidade, muitas vezes, seja por cristãos ou por rabinos, a significação original do texto sagrado necessitou ser sacrificada, ignorada em prol de uma hermenêutica mais coerente as necessidades do povo. Esse também é, por certo, um dilema para teólogos e pastores hoje: ignorar o significado real do texto sagrado para assim atender as necessidades da sua comunidade atual, ou permanecer fiel ao significado original evitando relativizar uma verdade crida como sagrada?


O cristianismo prevaleceu sobre todas as outras correntes do período pós queda do templo, diversos fatores podemos supor para justificar esse fato, a partir desses dois capítulos: Primeiro revisando os escritos sagrados para atender necessidades latentes do povo. Segundo aderindo os gentios sem impor a eles o judaísmo. Terceiro opondo-se fortemente aos movimentos contrários. Quarto definitivamente sua adoção pelo Império Romano.


Castro Lins