sexta-feira, 20 de maio de 2011

Somente Diferente









É coerente com a sociedade, defender o pensamento que cada ser humano individual, em resumo, é fruto de uma construção humana coletiva, ou seja, social. Em termos mais alegóricos é como se o homem estivesse sempre em construção, inacabado, e cada relacionamento pessoal e social no decorrer de sua vida construísse um pouco da sua identidade. Os fundamentos desse edifício que denominamos “homem” são postos pelos pais, esses, salvo exceções, são o primeiro objeto de relacionamento do homem e por seguinte os primeiros a construir uma identidade ainda em desenvolvimento, num estado, digamos, fetal.
Num segundo momento, o homem sai da realidade exclusiva aos pais e então passa a relacionar-se com o ambiente em que se insere, a partir de então cada outro relacionamento vem a definir em parte o que aquele homem é, de modo que podemos supor que o homem é um cultivo de uma determinada sociedade, podemos ir até mais além, acreditando que cada ser humano carrega em si, como processo dessa construção de identidade, um pedacinho do outro, uma parcela de contribuição inconsciente que é fruto de relacionamentos. O pensamento ideológico dominante que molda o contexto desse ator, também é predominante na sua formação como individuo, por exemplo, o homem moderno carrega consigo toda uma bagagem antropocêntrica talvez inacessível ao homem da idade média, o advento da ciência e a certeza que a terra não é o centro do universo, são de certa forma conceitos indissociáveis de uma identidade moderna.
Ao terceiro momento, certo da sua identidade como um processo único e acabado, esse indivíduo encerra o processo de construção, rejeita qualquer contribuição a mais e desconsidera qualquer outra identidade construída distinta da sua. Para esse encerramento, necessita a este, o romper das relações, que são sempre construtivas, com o outro diferente que ameace sua formação cultural identitária. Buscando-se razões para esse romper, faz-se uso de uma visão etnocêntrica a respeito desse outro ameaçador, e a partir de então se exerce um valor sobre, que na maioria dos casos é depreciativo para justificar a superioridade de determinado grupo cultural. Um pensamento coletivo de superioridade e de inferiorizarão do outro acarreta sérios riscos danosos, pois fomenta motivos e justifica ações de natureza violenta, em outras palavras, essas são de certa forma as mesmas razões que alimentaram a escravidão, a inquisição, entre outros muitos exemplos de intolerância que a história pontua.
O passo inicial para uma proposta de convivência saudável, pauta-se na não interrupção do processo de construção da identidade, de modo que o homem sempre encontre-se inacabado e carente de relacionamentos que o construam, todavia numa etapa adulta o indivíduo desenvolve-se a sujeito da sua vida e não um simples cultivo social, dessa maneira pronto para rejeitar toda cultura que violenta as relações sociais, e abraçar toda cultura que promove vida de qualidade em termos de religião, arte, ideologia, economia... Por fim, colocando sob critério o que virá a ser parte dessa identidade, esse indivíduo também deve atentar-se sobre qual olhar que ele deve lançar sobre as mais diversas manifestações culturais colocadas a seu dispor observatório, pois uma visão que opina a partir de realidades distintas ao nascedouro de determinada cultura, corre o sério risco de desvirtua-se e corroborar numa reprodução de conceitos discriminatórios que partem de experiências isoladas e generalistas.
Portanto o homem é um ser social construído da diversidade das relações, e não há outro modo mais humano de encarar o diferente que não seja apenas como “diferente”, nem melhor nem pior, somente diferente.

Castro Lins

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ESCUTAS?





Escutas?

Os templos ruíram sem ruídos,
Perdera Deus agora sua morada?
Onde escondes tua face sagrada?
Por que não atenta a mim teus ouvidos?

Dormir foi meu único pedido,
Acordar contigo o ultimo sonho.
Tanto amo esse Deus que envergonho...
Quisera eu, nunca ter nascido!

Culpa minha do pecado compor
Esse ser que nascer não escolhe?
A cegueira de vê ainda que olhe
O triste viver que queres me impor.

É graça, bom Deus que os seus acolhe
Em afagos tão ternos, embora,
Semeaste esta vida de outrora -
Hoje madura, apressa-te colhe!

Corro para da vida fugir;
A quem com suicídio compare,
Mas é só dor que quero que pare
E não vejo pecado em pedir.

Deus paterno, não ouves quando oro?
A mim concede ter-te de perto!
És pai e se não me escutas por certo
É porque sabe que a morte imploro.


Castro Lins

terça-feira, 3 de maio de 2011

FUNDAMENTAL VERDADE








FUNDAMENTAL VERDADE



A alma é como uma rainha a espera desejosa do seu rei. Diante dela, ao redor do mundo, há incontáveis pretendentes, verdades e mentiras, cujo desejo ultimo é vir a tornar-se objeto do agrado da alma. Todavia na porta de cada coração, que dá acesso intimo a alma, moram os dois maiores e mais poderosos exércitos de proteção do ser humano, a saber: a razão e os sentidos, estes possuem a indelével responsabilidade de reconhecer e ao mesmo tempo deter as mentiras que intentam alojarem-se na alma e trazem ao homem como um todo, danos sem medidas. O corpo necessita do alimento para mantença da vida e a alma se alimenta das verdades que nutrem a vida, dando-a sentido. É como se o corpo responsabilizar-se em fornecer a matéria prima do navio desde a proa ao mastro e a alma, por sua vez, tem em posse a bússola e o mapa que leva ao tesouro desejado, enfim, sem um destino não há porque navegar.


O dever da razão e dos sentidos é sem precedentes iguais, pois se por ventura uma mentira passar por entre tais exércitos, a alma encontrar-se-á desprotegida, vulnerável, prestes a navegar e entregar-se plena a uma mentira. Porém a alma por sua sensibilidade desmedida não foi feita para a inverdade e por certo, diante de uma, a repudiaria. O grande risco, no entanto, procede da mentira que perspicaz se traveste de verdade e conquista a alma com seus encantos hipócritas, a rainha então se apaixona e se curva ao seu rei, até o dia em que toda ilusão, por algum motivo externo, se desfaz e desaparece como a fumaça no ar. Repentinamente a vida pára e já não se sabe para onde navegar, pois o tesouro pereceu e a bússola já não sabe para onde apontar. Cada mentira que invade e depois evade a alma acarreta nela sinais dolorosos de incompatibilidade ou de um parasitismo que a enfraquece e talvez até leve a morte do hospedeiro. Por outro lado, a cada mentira evadida, o tempo é oportuno para a alma se expandir, após a crise, para comportar e recepcionar novas verdades, estas mais dignas de confiança do que as de outrora.

Uma alma ferida é levada reforçar suas defesas, de modo que as verdades são colocadas a prova por testes ainda mais infalíveis pertencentes à lógica e aos sentidos, de forma, quase sempre equivicada, a creditar validade apenas as verdades postas nos conformes da ciência. O medo de vivenciar um novo equívoco, algumas vezes, promove na alma um caráter cético que suspeita e repudia grande parte, ou talvez todas, as verdades colocadas a disposição. Sem dúvida esse é um mecanismo útil de defesa do ser, todavia se esquece que a alma carece de verdades como o corpo carece de alimento e longos períodos de privações adoecem a alma, em termos mais concretos, essa ausência afeta negativamente os relacionamentos pessoais entre pessoas.
A suposição de uma alma desprotegida a mercê de invasões de toda natureza ideológica, é sem fundamentos, pois a mesma dispõe de toda uma lógica, além de um conjunto de regras invariáveis construídas socialmente e que também são parte de uma consciência natural do homem que auxilia no discernir entre o bem e o mal, e ainda, entre o verdadeiro e o falso. Todavia temo em crer, que há algumas exceções que despreparam todas as defesas da alma e por fim enganam os sentidos. Ocorre quando os exércitos de defesa de repente encontram-se incapazes de exercer a menor reação diante da passagem de dois invasores, são estes: o amor e a fé, contra eles não há impedimento.



Tratemos do amor: Nem sequer há necessidade de narrar os inúmeros casos em que o amor sobrepõe a razão, desmerece as regras e seduz os sentidos; ele cativa a alma que se dá sem reservas, e em conseqüência altera a vida cotidiana do individua que por vezes ganha novos rumos, de modo inconsciente o amor manipula os sonhos que, a partir de então, são sempre favoráveis as vontades desse novo amante da alma.

Mesmo usando o termo: "invasor", nem sempre o amor traz malefícios ao seu hospedeiro, na verdade ele é indispensável para um ser humano de natureza relacional. Entretanto, essa abertura na defesa da alma proporciona, por um lado, a oportunidade do amor tão esperado e, por outro, um acesso livre para dezenas de ilusões travestidas de amor. Devo convir que esse é um risco necessário, porém a ilusão tem vida curta e quando ela se vai, como já relatado acima, as dores da desilusão de um amor perdido são indescritíveis. A alma é a matriz da sensibilidade humana e qualquer toque de mentira rasga-a violentamente, roubando dela sua funcionalidade e fazendo-a, a cada mentira, mais insensível.


Tratemos modestamente da fé: esta age em termos semelhantes ao amor. A razão ainda consegue participar da fé, todavia a fé sucede a razão de modo que não é rara a fé que implanta-se na alma, mesmo contrária a uma lógica resistente num primeiro momento. Num segundo momento, a razão, já indefesa diante da tomada da fé, deixa de lado a tentativa de provar a fé em termos de existência, pois para a alma invadida a comprovação é desnecessária diante do fato, e o empenho da razão, a partir de então, decorre na tentativa máxima de explicar de modo a dar sentido à fé em suas manifestações. No que diz respeito aos sentidos, estes perdem algumas de suas funcionalidades perante a fé: Tomé pede para tocar nas chagas das mãos de Jesus após este ressuscitar dos mortos, e as escrituras cristãs esclarecem esse momento com a seguinte frase de Jesus: “Felizes aqueles que não viram e creram”.


Segundo Paul Tillich, “fé como estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente”. Quando algo perpassa pelas portas do coração e toca a alma, esta já não estabelece condições para fé e se curva cativa ao seu rei. Por meio de tal virtude e constatação, as escrituras dizem que ao Senhor Deus ama-se de todo coração, força, entendimento... Pode-se convir que não há barreiras na alma para fé, todavia, a mesma problemática carregada pelo amor, também segue a fé. Do mesmo modo que essa abertura irrestrita da alma deixa-a acessível ao toque de Deus, também a vulnera ao toque de dezenas de ilusões travestidas com a roupagem de Deus. E como a fé consiste incondicionalmente, suas práticas também não respeitam limites de modo que em nome de um “falso deus”, qualquer tipo de perversão e atrocidade também são reflexos de uma fé incondicional. O livre acesso pelas defesas da alma, infelizmente, possibilita a passagem de toda espécie de ilusão reivindicando o trono de deus para a alma.

Partindo da premissa constatada, que diante da fé e do amor boa parte do sistema de defesa da alma encontra-se inerte e quase incapaz de distinguir entre a verdade e a mentira. A pergunta é: O que fazer perante isso? Apostatar da fé e negar o amor? A resposta da segunda pergunta é mais simples: não, afinal a alma necessita do amor em termos relacionais e da fé em termos de sentido a uma existência para manter-se saudável, o desvincular talvez seja mortal para indivíduo. Para primeira pergunta a resposta, se é que existe uma, não é tão simples. Excluindo a opção da apostasia da fé e do amor, logo, ambos precisam permanecer em contato com a alma humana para a manutenção de uma vida saudável, ainda que estes, a fé e o amor, possam ser ilusões que, no entanto, são imprescindíveis a vida. Não digo que o amor e a fé são ilusões, apenas esclareço o risco da ilusão que faz uso do amor e da fé.


O que parece claro nessa questão, é que não há parâmetros lógicos nem sentimentos que assegurem a entrega da alma apenas ao verdadeiro amor, ou garantam a fé voltada somente ao Deus verdadeiro. O que tenho de mais inteligível, ou melhor, apresentável, é a distinção do real e da ilusão que, para essas duas vertentes, pode nascer da experiência pessoal e da observação. Pois numa etapa inicial, a alma é tocada por uma suposta verdade e num momento posterior essa verdade vai ser aperfeiçoada e, a cada dia, tornando-se mais digna de confiança, ou, no entanto, ela vai desvanecer, atrofiar-se perante as pressões reais do cotidiano, deixar-se emboscar pela razão ou pela consciência ética humanizada e se revelar, finalmente, como mentira mascarada de verdade. Todavia, o processo da experiência implica erros recorrentes e, algumas vezes, inevitáveis; Implica também em decepção, no caos que desmorona certezas que levaram anos para serem construídas, desnorteamento, dores entranháveis fruto da perca de algo a que se creditou fé, ou da desilusão do amor que alimentou tantos sonhos. A experiência certamente remete ao sofrimento, mas o que se sustem a após as crises possivelmente é a fundamental VERDADE.
Castro Lins

quinta-feira, 31 de março de 2011

CONTO: ÁRVORE DOS OLHOS VERDES


A ÁRVORE DOS OLHOS VERDES (Segunda parte)

“Deus, meu Paim, tu que é acima dus homi. Tu que cunhece a peleja do nordeste e sabe do meu querer bem. Tu que é o poçu prufundo que num seca, cunforme tuas águas que são vivas, mas se faz sedento para compadecer do seu sertanejo. Tu que é Deus do sol e derrama graça como a chuva de inverno. A velhice frágil demonstra o quanto tu é forte e a juventude altiva o quanto sou fraco, igual gaio podre, diante de ti. Peço Paim, uma ultima glória que vai além do que sou. Dá a esse velho, bom Deus, a chance de uma nova vida, devolve, pela sua misericórdia e carim, meus anos perdidos!” Foi caído em terra seca com o sol sobre sua cabeça e a boca sedenta com o gosto da poeira, que o velho Jaime recitou sua oração.

De repente uma sombra... Ele abre os olhos e seu cavalo o estava a esperar. O vaqueiro monta em seu impetuoso cavalo e desperto da fuga do boi do tempo, dispara a cavalgar tão veloz quanto vento sul. Após três dias ininterruptos de cavalgada no rastro derradeiro do boi, o vaqueiro encontra-se por fim paralelo ao animal cujos cascos desterram o chão onde pisam, deixando uma nuvem de terra suspensa pelo seu caminho. Espinhos e galhos lhe são como capim que o vento corta. Estava cego, pela tempestade de areia que o boi causara em sua fuga, uma perseguição sem precedentes semelhantes entre mortais...

Jaime aproxima seu cavalo ao som dos cascos compassados, e enfim suas velhas mãos alcançam o rabo do boi do tempo. Ele sentiu como se seu braço estivesse a ser arrancado, porém nem mesmo o escuro sangue a escorrer por entre os dedos, tirou-lhe a firmeza. O velho cavalo fez seu último desvio em força para esquerda antes de sua morte pelo cansaço, e o boi do tempo foi arrastado e posto em queda, desabou por muitos espaços até, após horas, parar, prostrado resfolegando sem reação. Caído inconsciente, Jaime dormiu por três dias ao lado do cadáver frio do seu cavalo. Quando acordou, seu primeiro respirar consciente soube que seus pulmões agora comportavam o ar como balões bem cheios, seus olhos acompanhavam o horizonte e seus passos testemunhavam uma jovialidade inesgotável. Viril e moço, como seus tempos de herói, ele voltou em pressa de quem furta do tempo, para o encontro com aquela do seu desejo de amor.

Na medida do longo tempo, recuam os espaços; e logo o vaqueiro retornou para o seu sertão. Compassou seus passos vagarosos, intentando atrasar as horas e chegar em sua caverna no exato momento em que a lua frouxa derrama toda sua luz sobre a noite, no esperado instante da visita do amor que não bate em portas, apenas entra e logo faz morada como hóspede.

Toda espera naquele momento encerrou-se. Jaime entra na caverna e a luz da lua continuava a infiltrar por entre a brecha enlarguecisda, iluminando o gélido corpo de vida ausente da bela jovem, cujos olhos verdes agora estavam cerrados em fechadura.

O príncipe dos vaqueiros tremeu como uma criança que não sabe o caminho de casa. De joelhos diante da moça de pele confundível com a própria terra onde faleceu, ele chorou, pois agora havia acumulado muitas águas em sua alma. Ao seu lado estava o poço seco, cúmplice da assassina sede. Naquele mesmo local, enlutado, ele a enterrou como o camponês que enterra a semente na esperança da chuva. A brecha da caverna ganhou mais tamanho, para que a lua o consolasse com sua luz e o sol zombasse do seu degredo.

Dia e noite Jaime chorou sobre a terra onde enterrou sua amada de olhos verdes e pele cor de terra. E quando não havia verde algum por sobre a terra do nordeste, regado a lágrimas diárias, um pequeno broto rompe o solo e nasce. Um milagre! Naquele dia choveu no sertão embebedando a vida árida. A pequenina planta de olhos verdes, nascida sobre a morte, cresceu e tornou-se árvore, viveu os mesmos anos que o vaqueiro conquistou em sua vitória sobre o boi do tempo.

Jaime ganhou uma nova vida, apenas para saborear o doce vício do amor que se apodera do amante e o amargor triste de perder a quem se ama; “o que adiantou anos mais, sem ela comigo para vivê-los?” Repetiu seu jargão por muitos dias... Todavia logo pode convir que destino pior, tem aquele que morreu sem nunca amar, sem nunca entregar-se ao risco ou a busca do tempo, tentando de alguma forma deter-lo para estender um segundo mais a felicidade.

Diante dos anos dados, Jaime deixou sua vida antiga, seu afã pela fama e glórias heróicas. Dessa vez viveu uma vida ordinária, simplória para apreço do bom Deus que se agrada dos seus pequeninos. Guardou a sela e passou a viver de pequenos artesanatos oriundos apenas da sua “árvore de olhos verdes”. A despeito da tamanha simplicidade, a história da sua segunda vida também percorreu o nordeste como o sopro do vento com tantas direções, pois casais incontáveis vinham a seu encontro para que forjasse de sua árvore alianças de madeira. Alguns fizeram desse artesanato, o símbolo de almas jovens que ousam contra o tempo. Símbolo de um amor de origens sertanejas humildes, plantado em terra seca, regado a lágrimas, mas, sobretudo forte, vivo e verde como olhos da bela jovem da pele cor de terra molhada.

Castro Lins

Certamente ao ler, em qualquer estação do tempo, saberá que escrevi para você esse conto de madeira, fruto do meu simplório artesanato. Espero mágica dele... Que ele seja símbolo de amor, tempo e força em sua vida, ainda que em dias de seca. Dedico-te com todo meu carinho nordestino... Castro Lins


NÃO AMAR


“Hey, você me ama?”
Um palpite vou arriscar:
Eu te amo contra minha vontade,
Se no amor houvesse liberdade,
Escolheria não amar.

Não há lógica nesse sacrifício,
Não há prazer sublime ou algo mágico.
Quem ama é mártir por puro oficio,
E seu amado não passa de um sádico.

A todo amor uma cruz precede:
“Pai, afasta de mim esse cálice!”
É o pedido que todo filho pede.

Todavia há outra vontade além,
Diante dela dirá o que, filhinho?
Resta-lhe somente o pobre amém
E na boca o gosto acre desse vinho.

Eu amo por essa Maior Vontade,
Aquém dei escrava minha liberdade;
Cheio sim de má vontade sem fim,

Mas amo porque o amor quer e invade,
Domina o meu incondicional, abusa e
Pede toda minha felicidade;
Não é sem razão que tanto reclamo...
Infelizmente não há outra verdade:
Eu te amo, te amo, amo

Castro Lins

sexta-feira, 25 de março de 2011

CONTO: ÁRVORE DOS OLHOS VERDES


ÁRVORE DOS OLHOS VERDES
(PRIMEIRA PARTE )

Houve tempos em que os heróis nasciam no nordeste brasileiro, vestiam couro impenetrável, cruzavam a caatinga hostil em seus cavalos impetuosos a arrebanhar. Quando despertos a fuga do boi ligeiro, os vaqueiros disparavam a cavalgar... E quando por fim paralelos ao seu alvo, um desses prendia sua mão firme como corrente no rabo do boi arisco e com um forte desviar esquerdo do seu cavalo, o pobre animal fugitivo vinha ao chão erguendo poeira para ocultar sua queda abruta. Toda aquela perseguição empolgava o dia a dia do sertanejo. E o árido solo nordestino era um coliseu romano onde o homem e a fera arisca furtiva duelavam, uma caça envolta a arte de perseguir e derrubar, uma tourada brasileira que foi parte do trabalho exaustivo do sertão em dias de outrora.

Seu Jaime foi o maior vaqueiro de profissão conhecido entre aqueles tempos, pisara em todos os solos denominados nordeste desse Brasil, derrubou tantos bois quanto os dias da sua vida. Cavalgava esbelto e levava em sua garupa os corações das moças dos vilarejos por onde passava, deixava-as carentes, amputadas de órgão tão vital sempre quando ele partia em busca de uma nova aventura, um novo desafio. Jaime conquistara o respeito do povo pobre pela sua humildade e coragem, ninguém contava histórias como ele! Também se beneficiou de forma tamanha das riquezas dos fazendeiros, que logo careciam de seus serviços como vaqueiro.

O tempo é um boi santo e bravo que nem o próprio Jaime, príncipe dos vaqueiros, poderia perseguir e deter, ele não é nunca arrebanhável e foge como uma presa que zomba de seus caçadores. Conta a lenda que aquele vaqueiro capaz de emparelhar-se em corrida com o boi santo do tempo e, ferozmente, freá-lo puxando por seu rabo para então lançá-lo em terra, esse tão capaz, seria galardoado com uma nova juventude viril. O tempo será retrocedido para coroar esse vaqueiro vencedor.

Durante os dias do mandacaru verdeado, do caju que trava na boca e da pitomba com caroço... Jaime tinha se empenhado sobre tudo nessa vida e sua fama de herói do nordeste ganhou até as terras mais distantes e agrestes, entretanto, o boi do tempo havia fugido de suas mãos de corrente e Jaime envelheceu. O vaqueiro refugiou-se enquanto sua velhice, em uma terrinha simples de trechos salobra no sertão baiano.

O sol que estava sobre a terra, decidiu fixar-se não cedendo espaço para nuvens escuras que lembram um belo dia para o sertanejo. Por um tempo de sobremodo incômodo a qualquer vida, não chovia no sertão. Os rios secaram. A fome tornou-se peste que levou muitos embora consigo. A semente foi a primeira a ser enterrada e lá permaneceu sem nunca ousar germinar. A seca fez da terra esposa estéril e dos homens maridos infrutíferos, certamente a mais algoz conhecida pelo seres que moram embaixo do sol. Poucos fortes da caatinga ainda sobreviviam. Entre estes estava Jaime, quando todos outros de sua idade jaziam mortos.

A vida ainda resistia, cativa a seu velho corpo. O vaqueiro possuía em suas terras uma caverna, um lugar em segredo onde milagrosamente ainda havia água barrenta em um poço secreto. Era dessa fonte escondida que o próprio retirava o seu resto de vida, ainda bebia ele e seu velho cavalo de mocidade. Jaime vigiava atento dia e noite sua fonte, pois sabia bem que não podia dividi-la para mais alguém antes que a seca findasse. Todavia naquela noite ultima, dava a lua mais luz que o necessário e entre as sombras o atento vigilante percebe o aproximar de passos a adentrar lentamente em sua caverna. Ele segue o vulto, pronto para um degradante possível duelo pela água. A espreita, escondido entre os lajedos, Jaime observa a aparência do ladrão que de repente é revelada, quando este cruza uma brecha na caverna por onde a luz da lua penetra de forma irrevogável. E o vulto dá lugar a uma bela jovem de traços exóticos, com a pele cor de terra molhada e os olhos de um verde incomparável, afinal, por muitas datas que não houvera verde por sobre a terra. Como nunca antes Jaime estava encantado, sem medidas. Aquela moça era como a chuva mais esperada em anos de sequidão, sua pela confundida com a terra a que pisava e seus olhos de um verde como de um jardim suspenso.

Não havia luz da lua todas as noites. Mas a despeito, o vaqueiro espera a razão do seu encanto por entre as sobras observando-a beber. Á água passara a ser comum, como se fosse farta num rio, cuja importância viera a ser apenas de isca, ou luz que atrai a mariposa desejada. Jaime apaixonou-se perdidamente pelo verde dos olhos da moça da pele cor de terra. Num árido dia decidiu se preparar para então, naquela noite, revelar sua paixão para aquela que ele já a muitas noites conhecia por observar; deixaria ele seu oculto esconderijo nas trevas e contemplaria de perto os olhos de sua amada. Todavia, quando ao dar de beber ao seu cavalo, percebeu o seu reflexo ligeiro e colorado na água barrenta do seu poço. Lembrou da sua velhice em oposição ao seu passado heróico. Os traços maldosos da idade fizeram-no temer o repudio ao revelar-se a sua preferida. Jaime não pode chorar ainda, pois a seca alcançara a sua alma. Decidido a um ultimo gesto de fé antes da morte pelo desgosto tristonho, o vaqueiro selou seu velho cavalo, precaveu-se do máximo de água que poderia carregar e partiu veloz em busca do boi do tempo, decidido a derrubá-lo e ganhar em troca sua juventude de volta.

Em sua velhice, naqueles dias de seca e fome, o vaqueiro novamente cruzou todo o nordeste na busca corajosa do boi santo do tempo. Viu em sua viajem muitos miseráveis e retirantes fugidos da seca, relutavam contra a morte que os perseguia em encalço. Três meses passaram, e quando a morte sedenta veio das trevas buscar os últimos suspiros do lendário vaqueiro, ou quando o mesmo mal conseguia manter-se mais sobre seu cavalo. Sem espera, algo acontece e surpreende até mesmo a morte que interrompe sua vinda. Um vento altivo de ímpeto indescritível e força indelével perpassa entre a mata, levantas suas folhas secas, choca-se com o velho vaqueiro e o derruba sem esforço do seu cavalo. Era o boi santo tempo, fujão e zombador. Castro Lins

(CONTINUA)

sexta-feira, 4 de março de 2011

TEOLOGIA EM INSERÇÃO

Teologia em inserção

Desvios no curso inicial da vida, são efeitos diretos e, por vezes, conseqüentes do simples fato consistente de acreditar em vocação. Diferente de um prédio projetado invariável, a vida por sua vez se projeta enquanto se constrói, ou melhor, vivendo-a. A cada passo que se vive, o homem pode depara-se com descobertas sobre ele capazes de mudar planos sólidos ou até mesmo os sonhos mais almejados. Entre tais descobertas, a de maior persuasão é, sem dúvida, a vocação. Ela coloca cada indivíduo em seu lugar exato na sociedade, como uma peça indispensável para o funcionamento de uma máquina ou um órgão vital para o corpo.

Na busca ininterrupta desse meu lugar entre as pessoas, encontro na teologia meu encaixe como peça nesse quebra - cabeças social. Muito além da cômica curiosidade da criatura a procura de entender o Criador, a teologia se insere na minha vida como a área de conhecimento na qual claramente me identifico, melhor sei reproduzir, criar e recriar, enfim, aplicar de forma direta nas vidas que me cercam. Surpreende-me e cativa de sobremodo, a forma singular que a pessoa de Jesus penetra, influi sobre alguém e transforma sua substancia impura, como mágica ou química, em algo de natureza nova, ou mesmo sincera; consciente pecador ascendendo pelo caminho que leva a perfeição varonil. Um novo nascimento sem a necessidade de retorno ao ventre materno, uma observação transcendente que como nenhuma outra é digna de notoriedade. Talvez nenhuma outra profissão ou ideologia, seja capaz de atingir de modo tão significativo e poderoso a vida das pessoas, ao ponto da fé tornar-se centro único que move (pelos mais diversos caminhos), direciona, unifica vidas. Apesar dos tantos equívocos eclesiais, a religião nunca se ausentou da história; ela é parte das sociedades e da alma humana e, a meu ver, em virtude, digna também de análise e estudo.

A teologia empreita a frente uma caça por respostas, cujas perguntas promovem a marcha da vida em busca de sentido e felicidade, por essa razão ela sempre se coloca imersa a todas as questões indissociáveis ao homem. Sem dúvidas, entender Deus vem a ser uma presunção sem medidas, todavia a marcha por resposta certamente caminha indesviável ao Seu encontro. Por sua importância e presença inquestionável no cotidiano humano, ser teólogo insere-se nos meus planos como objeto digno de vivenciar e fazer uso para benefício das pessoas e crescimento próprio. Crescimento em termos de fé, serviço e descobertas.

Jesus já é alguém intrigante e atraente o bastante para justificar a dedicação de boa parte de minha vida na tentativa de interpretar sua real mensagem, para assim envolver-se por ela e enfim difundi-la na espera de mudanças reais que começam na vida, mas cujos efeitos, acredito, vão muito além do tempo, ou mesmo da morte. Sem tantos mais rodeios, confesso que inserção da teologia na minha vida alimenta minha fome de conhecimento sobre Deus, todavia não fixa cegamente meus olhos para o céu, pelo contrário, aproxima-me involuntariamente das pessoas, pois é nelas que os termos abstratos da fé se concretizam e, afinal, são elas o objeto do amor divino. De modo que teologia não se prende apenas a sua relação com o estudo de Deus, mas estende-se, sem medidas, em direção as pessoas. Por essa razão talvez, relaciona-se sempre a teologia ao ministério pastoral, pois afinal, pastorear em termos simples resume-se em cuidar das pessoas. Entendendo assim, o pastoreio é parte integrante dos meus projetos de vida e certamente a teologia contribuirá para essa realização.

Em termos mais diretos: cuidar das pessoas, auxiliar como servo nos ministérios da minha igreja – principalmente no que diz respeito ao ensino - e galgar uma evolução acadêmica progressiva, são objetivos pretendidos por mim e essa graduação vai ser um sólido e necessário fundamento para concretizá-los. Além de qualquer argumento, acredito também em vocação e estou disposto passar as páginas de uma vida objetivada pelas minhas necessidades, e atentar a essa voz que promete apenas um lugar de servo na sociedade, uma fé a ser guardada e uma carreira que ainda preciso completar.

Castro Lins